Análise de redes do #8M no Twitter

[Texto por Pedro Barciela, pesquisador e entusiasta das redes sociais online. Autor do blog Essa Tal Rede Social]

Durante os dias 06 a 09/03, acompanhamos, coletamos e processamos as principais hashtags envolvidas com o #8M, dentre elas: #ParadaBrasileiraDeMulheres, #8MBrasil, #GreveInternacionaldeMulheres, #8M, #ParoInternacionalDeMulheres, #8DeMarco, #WomensStrike, #MujeresEnHuelga, #WomenStrike, #womenstrikeus, #march8strike, entre outras. O objetivo foi capturar menções de diversos lugares do mundo, buscando analisar como um todo a luta das mulheres e as manifestações que ocorreram nesse dia 8 de março.

No total, foram capturadas 346.729 ocorrências no Twitter. Um ponto interessante: mesmo no dia das mulheres o maior número de tweets foi feito por usuários que se identificaram como “masculino” – cerca de 49,6% – em comparação com os usuários que se identificaram como “feminino” [44,4%]. Vale ressaltar, no entanto, que essa rede apresenta um número maior de usuários masculinos regularmente [no Brasil eram 58% homens e 42% mulheres em 2015].

Dois países lideraram o ranking de ocorrências capturadas: Argentina e Espanha. Os dois países tiveram importante participação na ativação das redes latino-americanas e europeias, respectivamente. Já o Brasil, assim como em outros momentos de forte mobilização no Twitter, mantém-se afastado de agrupamentos envolvendo países da América Latina, fato esse que pode ser explicado, dentre outros pontos, pela barreira linguística.

Abaixo, elencamos os 11 principais agrupamentos do grafo, que conta com 130.984 nós e 201.823 arestas:

1. Cluster amarelo: 20,71% – Conta com o usuário MujeresEnHuelga – talvez o principal na cobertura mundial de atos e paralisações envolvendo a data. Comandado por perfis argentinos e com forte participação de perfis chilenos, contando também com perfis uruguaios. O fato de o cluster formar-se por meio das redes latino-americanas [Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Uruguai, por exemplo] traz consigo o peso das lutas feministas presentes nesse continente, como a luta pela legalização do aborto em alguns países e um posicionamento sobre o momento político da região muito mais forte do que em outros clusters, tendo em vista o delicado momento político que muitos países latino-americanos vivem.

2. Cluster azul: 20,69% – Conta com o usuário feminicídio e feminismosMAD e muitos outros espanhóis, como o usuário oficial do Podemos!, por exemplo. Um ponto interessante e de distinção entre os dois maiores clusters é o tema do aborto. Enquanto palavra [termo] muito debatido no cluster da América Latina, o tema praticamente inexiste no cluster europeu.

3. Cluster rosa: 9,9% – Cluster com usuários brasileiros. Nitidamente separado de clusters de outras línguas, conta com perfis historicamente engajados com a luta feminista no Brasil e perfis de imprensa progressista/independente.

4. Cluster verde: 8,53% – Tem como principal usuário o Al Jazeera English e IMP0RABLE, usuário canadense anti-Trump. Tem também artistas como Patricia Arquette (EUA), Oxfam, Jennifer Li, entre outros. Conecta-se, acima, com usuários italianos. Consideráveis usuários de Chicago.

5. Cluster Petróleo: 6,31% – Assim como o Desinformemonos, muitos usuários são mexicanos nesse agrupamento, como o Instituto Simone Beauvoir. A atenção ao dia das mulheres se divide com manifestações que buscam relembrar os desaparecidos de Ayotzinapa. Aqui chama atenção o enfoque dado ao assassinato e desaparecimento de mulheres mexicanas, bem como a conexão com entidades e comissões de direitos humanos.

6. Cluster rosa-choque: 4,24% – Formado com grande enfoque na usuária srtabebi, que tem um livro publicado pela editora Frida. Composto também por outros usuários espanhóis, como elamoreschulo e rutherfcrd na borda inferior esquerda do cluster. No extremo superior direito conta com usuários como papayatropical_ e greciamaria (Porto Rico).

7. Cluster verde musgo: 4,12% – Cluster de usuários paraguaios, como paromujerespy, elsurti e paul_lando, radialista paraguaio que reside nos EUA e é fortemente ligado a luta LGBT.

7. Cluster azul mais escuro: 3,04% – Composto, por um lado, entorno do Ministério de Serviços sociais e igualdade da Espanha. De outro, por Pedro Sanchez, padre e militante do PSOE e Verónica Pérez, secretária geral do PSOE de Sevilla, também uma influenciadora desse agrupamento.

8. Cluster vermelho: 2,68% – Composto por usuários uruguaios como o Frente Amplio, Histericas.Uy e Adriana Barros, coordenadora de sistemas e governo eletrônico do MTOP. Dialoga em um extremo com usuários argentinos (brisasan e FashionTVLa).

9. Cluster Verde Tennessee: 2,31% – Liderado pelo perfil Tennessee Republicans (TEN_GOP). Apoiador de Trump e contra lutas progressistas, tal como EaglePundit, Harry Khachatrian e Christina Sommers, autora do livro “Who Stole Feminism?”. Até aqui foi o único cluster de ataque às pautas progressistas que movem o #8M.

10. Cluster Bege: 2% – Agrupamento que conta com o tenista Del Potro (argentino) e Mariana Zuvic, deputado parlamentar do Mercosul pela Argentina, de forte oposição à Cristina Kirchner. Aparenta ser um agrupamento de direita na Argentina.

É interessante observar como a ARS nos ajuda a analisar as particularidades de uma ação que à primeira vista pode ser homogênea. Assim como o próprio feminismo e suas diferentes vertentes, é possível observar diferenças nítidas entre as manifestações realizas nas avenidas de Buenos Aires, nas praças mexicanas ou nas ruas de Madrid. Enquanto a luta feminista caminha muito próxima à instabilidade política e de perda de direitos que marca a América Latina, na América do Norte o inimigo tem cara, id e atende pelo nome de Donald Trump.

Assim, da mesma forma como ocorreu quando do debate envolvendo #AbortoSim ou #AbortoNão, tema que também abordei lá no Essa Tal Rede Social, a ARS nos leva para uma análise além da simples quantificação de dados. Ela nos ajuda a compreender, cada vez mais, a afirmação “the whole is always smaller than its parts”.

Texto por Pedro Barciela, pesquisador e entusiasta das redes sociais online. Autor do blog Essa Tal Rede Social.

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