O papel da comunicação na criação ou reforço das desigualdades

por Fernanda Alves, Jornalista(IESB/DF), mestranda em Informática(UFRJ), atualmente é coordenadora de Business Intelligence e professora no IBPAD.

Antes de começarmos nossa conversa, convido você a adivinhar qual das frases abaixo foi proferida no início do século XX:

a) “Estou simplesmente afirmando que a distribuição de preferências e habilidades de homens e mulheres difere em parte devido a causas biológicas e que essas diferenças podem explicar por que não vemos a representação igual de mulheres em tecnologia e liderança”

b) “As mulheres, em média, têm mais abertura voltada para sentimentos e estética em vez de idéias. As mulheres geralmente também têm um maior interesse pelas pessoas e não pelas coisas, se comparadas aos homens”

c) “As mulheres são inferiores aos homens em capacidade intelectual, sobretudo naquele tipo de capacidade que se chama criativa. Sem dúvida o fato salta aos olhos, e se admite que nenhum grau de educação e liberdade de ação irá alterá-lo sensivelmente.

Se você respondeu que foi a alternativa “c”, então acertou. Mas, se não acertou, saiba que compreendo o embaraço. As três frases parecem ter sido escritas pela mesma pessoa há muito tempo. No entanto, quase cem anos separam a última frase das restantes. A terceira sentença foi publicada em 1920, em uma resenha sobre uma coletânea de ensaios que defendia uma suposta inferioridade intelectual feminina. O autor dos ensaios e o resenhista propagavam essas ideias e encontraram forte confronto quando a escritora Virginia Woolf escreveu em réplica e tréplica para o mesmo jornal. Munida de muitos argumentos sócio-históricos ilustrou porque o acesso de mulheres brancas* a espaços de poder e liderança tinha menor proporção em relação aos homens brancos*.

Mas, voltando a 2017, retomamos às duas outras frases do quiz acima, proferidas por um engenheiro funcionário do Google, em um manifesto de dez páginas, em que defende – assim como os contemporâneos de Vírginia – a superioridade masculina e o fim da diversidade de gênero e racial no meio corporativo. Ao retomar essas colocações pretendemos refletir sobre como os discursos sexistas e racistas se apresentam em nossa sociedade, encontrando ecos e reforços também na Comunicação. Apesar do posicionamento oficial do Google, após o evento, ser em favor de maior diversidade, é importante relembrar uma estatística de 2015 que demonstrava que menos de 30% dos postos de trabalho das grandes empresas tecnológicas do Vale do Silício eram ocupados por mulheres. Sabemos, portanto, se por um lado encontramos posicionamentos claros e ações tímidas, por outro, os discursos e as práticas discriminatórias não se tratam de casos isolados. Tais discursos são constantemente reforçados culturalmente e seus impactos podem ser percebidos e acompanhados historicamente.

Virginia, em seus artigos que formam a coletânea “Profissões para mulheres e outros artigos feministas” (de onde foram retiradas as frases do quiz) problematizou a baixa presença feminina branca em espaços de grande expressão, trazendo o fato de que mulheres brancas foram confinadas aos espaços e afazeres domésticos ao longo da história ocidental e que a consequência direta disso foi o menor número de artistas brancas, cientistas brancas e políticas brancas. Interessante observar que entre as falas sexistas e pseudobiologizantes do manifesto, esteja uma que afirma serem as mulheres inaptas para o trabalho e pesquisa tecnológica. Assim também podemos problematizar questões sócio-históricas para refletirmos sobre a tal “inaptidão de mulheres para a tecnologia”, muitas vezes divulgada como verdade em espaços acadêmicos, profissionais e também cotidianos e midiáticos.

Dados do Inep/MEC informam que menos de 16% dos(as) estudantes de graduação de cursos tecnológicos são mulheres, e 79% dessas alunas abandonam o curso ainda no primeiro ano, segundo o PNAD (2016). Se o recorte educacional é desapontador, no mercado de trabalho as estatísticas também não são muito animadoras, pois chega a 41% o abandono da carreira por parte das mulheres profissionais. Para aquelas que conseguem alcançar esses postos, ainda é necessário enfrentar uma defasagem salarial de até 30%, em relação aos seus pares homens. A que se deve então este cenário tão desigual?   Segundo Caitlin Kenney and Steve Henn, em seu artigo “When Women Stopped Coding” no National Public Radio (NPR/EUA), o pioneirismo de mulheres na computação é expressivo – como por exemplo, Ada Lovelace, considerada a primeira programadora da história e que viveu no século XIX. Porém, a partir da década de 1980, há uma mudança drástica nesse panorama. A pesquisa apresenta a chegada dos computadores pessoais aos lares americanos e o forte apelo mercadológico desse item e de outros dispositivos eletrônicos, como o video-game e seu direcionamento para o público masculino. No Brasil, até a mesma década, os cursos de computação tinham maioria de mulheres. Em 1974, a turma de bacharelado de Ciência da Computação do IME, por exemplo, era formada por 70% de mulheres.  Um elemento bastante percebido por Kenney e Henn diz respeito à associação da cultura geek/nerd com o gênero masculino desde a infância até a idade adulta. Uma das pesquisas referenciadas no artigo é de 1990 e se baseia na entrevista de centenas de estudantes de ciência da computação de uma prestigiada universidade americana a respeito da presença de computadores nos lares desses/as estudantes. Na investigação, um padrão encontrado é o de que as famílias tendiam a presentear seus filhos com computadores, e tal tendência não se repetia para as meninas, ainda que houvesse interesse por parte delas. Como os computadores pessoais se tornaram comum, a naturalidade com que esses jovens lidavam com esses dispositivos, ao longo de décadas, fez diferença no tratamento educacional recebido, uma vez que os professores já assumiam que os alunos estavam familiarizados com tais tecnologias. Interessante saber que na década de 1980, no Brasil, a propaganda comercial que lançava o brinquedo “Pense Bem”, anunciado como “o seu primeiro computador”, se tratava de um diálogo entre um homem e um garoto. E essa imagem ratifica as observações encontradas por Caitlin e Steve.

As relações de gênero e raça têm crescido e conquistado espaços multifacetados na sociedade, haja visto como tais temas são debatidos nas mídias sociais e são estudados dentro e fora dos espaços acadêmicos e de militâncias. Sendo assim, um discurso que reforce sexismo e qualquer outra discriminação ou ódio, desde um debate escrito há quase um século a um manifesto ocorrido dentro de uma das maiores empresas da atualidade, exige análise cuidadosa que busque compreender os elementos históricos e sociais que os reforçam ou os enfraquecem. Para além disso, também é urgente o aprofundamento no entendimento dos dados quantitativos sobre seus efeitos e, especialmente, sobre o impacto sofrido por pessoas pertencentes às minorias políticas. Sem sombra de dúvidas, é esperado (e desejado) que profissionais e pesquisadores/as, aliás, que pessoas comprometidas com pautas progressistas estejam disponíveis e atentas e possam tomar parte nessa extensa reflexão que convida à autocrítica em prol da construção da equidade de direitos.

* Algumas observações: importante dizer que as mulheres que Virgínia Woolf e seus interlocutores se referem tratam-se de mulheres brancas europeias ou norte americanas, ainda que isto não esteja dito diretamente, trata-se do recorte analisado por ela e eles. Essa observação deve ser feita a fim de que não se negue que, à mesma época, enquanto mulheres brancas discutiam o acesso à educação ou ao voto; pessoas negras, vítimas recentes do período escravocrata, ainda enfrentavam o racismo eugenista institucionalizado e lutavam para serem reconhecidas como pessoas plenas de direitos. Portanto, se o cenário para mulheres brancas apresentava tantas limitações e lutas, ainda mais para as mulheres negras e racializadas à época.

 

Fontes:

WOOLF, V. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. L&PM: 2012

NAKAMURA, Fabíola et al. Participação feminina em cursos de computação: um estudo no Instituto de Computação da Universidade Federal do Amazonas.
http://csbc2017.mackenzie.br/public/files/11-wit/23.pdf

Engenheiro demitido pelo google por manifesto antidiversidade processa empresa
https://olhardigital.com.br/noticia/engenheiro-demitido-pelo-google-por-manifesto-anti-diversidade-processa-empresa/70288

Programaria
https://www.programaria.org/sermulheremtech/

When women stopped coding
http://www.npr.org/sections/money/2014/10/21/357629765/when-women-stopped-coding

Por que há menos mulheres no setor de tecnologia
http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Dilemas/noticia/2015/08/por-que-ha-menos-mulheres-no-setor-de-tecnologia.html

As mulheres e a tecnologia
https://oglobo.globo.com/economia/as-mulheres-a-tecnologia-18825856

Por que as mulheres foram afastadas da área de ciência da computação nas últimas décadas
http://claudia.abril.com.br/sua-vida/por-que-as-mulheres-foram-afastadas-da-area-de-ciencia-da-computacao-nas-ultimas-decadas/

Propaganda Pense Bem: https://www.youtube.com/watch?v=Q5M63fGbuIk

Google demite funcionário que escreveu memorando contra diversidade de gênero
http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/google-demite-funcionario-que-escreveu-memorando-contra-diversidade-de-genero.ghtml

 

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