Entrevista com Adriana Amaral sobre estudos de fãs no Brasil

[Entrevista realizada por Eloy Vieira, doutorando em Comunicação pela Unisinos e mestre pela UFS, pesquisador sobre fãs, economia e internet]

Depois de algumas discussões em torno do último post com os principais pesquisadores sobre os Estudos de Fãs no Brasil, acabei sentindo a necessidade de aprofundar algumas questões para arrematar esta série sobre o tema aqui no blog. Entrevistei a profª. Drª. Adriana Amaral, integrante do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e líder do grupo de pesquisa CultPop. Na entrevista ela fala um pouco sobre sua percepção acerca desta subárea englobada pela Comunicação. Além disso, destaca a centralidade que a internet passa a ocupar para a pesquisa na área e aponta algumas especificidades da pesquisa no Brasil e dá algumas dicas valiosas para quem está começando.

 

Eloy Vieira: De 2002 pra cá, quais as mudanças mais perceptivas nas abordagens e nas temáticas nos trabalhos que estudam fãs?

Adriana Amaral: As mudanças são enormes. O que antes era tratado como trivial e “mero entretenimento” com desdém por uma parte de pesquisadores dos estudos de comunicação e mídia ganhou um campo e cresceu tanto em termos quantitativos como qualitativos. Das temáticas mais relacionadas às comunidades online e suas formações, passamos a observar fenômenos articulados com narrativas, com identidades políticas e culturas, com as questões mercadológicas entre outras. Destaco os fenômenos de ativismo de fãs, por exemplo, que tenho estudado desde 2014 no qual podemos ver a complexidade das relações entre cidadania e entretenimento. As questões de ódio dos haters e “anti-fãs” revelando características das distintas sociedades como racismo, questões de gênero etc. Tudo isso foi se desenhando a partir desses estudos. Acho que a questão da materialidade dos objetos, do colecionismo é algo que também tem crescido, sobretudo se levarmos em consideração eventos como a CCXP (Comic Com Experience) e outros que a cada dia cresce no país. Em termos de pesquisa, ainda temos poucos estudos de fôlego como dissertações e teses. Há um maior número de artigos, talvez pela fluidez dos temas, pela falta de orientadores que encarem o desafio.

 

EV: Nos últimos 15 anos vimos, especialmente no Brasil, que as mídias sociais ganharam e continuam ganhando penetração no país. O que isso implicou nas pesquisas de fãs?

AA: Ao contrário da tradição anglo-saxônica na qual os estudos de fãs vêm de uma tradição marcadamente offline e migraram para o online, os estudos de fãs no Brasil já iniciam nesse contexto da internet. A questão é que não podemos mais pensar em estudos e métodos que tratem disso de forma separada. A questão de uma certa facilidade e especificidade da coleta do material online precisa ser triangulado com questões de ordem macro do comportamento da sociedade e consequentemente dos fãs. Mas, obviamente que o online nos dá mais possibilidades de visualização, monitoramento e rastreamento disso.

 

EV: Como os pesquisadores brasileiros da área estão posicionados em relação á pesquisa no cenário internacional?

AA: Acho que estamos muito bem, essa subárea é ainda pequena, mesmo em termos internacionais e é logicamente um campo de interface de saberes como estudos culturais, sociologia, literatura, antropologia, estudos de mídia, celebridades, internet. O conceito do fandom transcultural tem trazido à tona percepções sobre produtos, processos e audiências distintas e como se dão essas codificações e relações em rede. Há muita curiosidade sobre o que está sendo produzido no Brasil, até porque franquias como Star Wars, por exemplo, são consumidas de forma intensa por aqui. Tem havido muita troca com doutorandos brasileiros estudando fora, autores do campo sendo traduzidos e dando entrevistas a periódicos nacionais e pesquisadores brasileiros participando de eventos internacionais. As publicações em inglês têm sido citadas. No dossiê sobre Fandom Transcultural do Participations: International Journal of Audience & Reception Studies, um dos principais da área houve menção ao trabalho que vem sendo desenvolvido fora do eixo Europa-América do Norte-Oceania e o Brasil aparece com citações a autores brasileiros. O diálogo é fundamental!

 

EV: Onde vocês recomendariam para os pesquisadores brasileiros em início de carreira estudassem se quiserem focar nos estudos de fãs aqui dentro e fora do Brasil? Por que?

AA: A primeira questão é pesquisar quem tem orientado pesquisas nesse sentido, temos o pessoal da USP que trabalha especificamente fãs de telenovelas, temos o pessoal da UFSCAR que tem uma ênfase mais voltada às questões narrativas de seriado, o meu grupo na UNISINOS que tem uma pegada de cultura nerd, o pessoal da UFF com os trabalhos da Simone de Sá e do Bruno Campanella; o João Freire Filho da UFRJ ja orientou vários trabalhos relacionados a fãs e celebridades, o Thiago Soares da UFPE, que foca mais nas questões da música pop. Mas tem outros orientadores que topam orientar mesmo não sendo exatamente a especificidade deles como a Raquel Recuero, por exemplo, o importante é analisar caso a caso. O importante também é ter acolhimento em grupos, ler o que está sendo feito pelos colegas brasileiros e o que é publicado fora. A Fan Studies Network é um excelente lugar, o blog está sempre atualizado e é quem organiza a principal conferência. Fora temos a University of Huddersfield (que atualmente congrega alguns dos mais conhecidos pesquisadores como Cornell Sandvoss e Matt Hills) e a University of Norwich, ambas na Inglaterra; tem o Paul Booth em Chicago e a Anne Jamison nos EUA. Tudo depende das temáticas e intersecções de pesquisa. Mas o que vou falar vale pra qualquer área/projeto, é preciso ver se há pertinência, pesquisar as linhas de pesquisa, e se preparar bem para as seleções.

Leia outros posts da série com o Eloy Vieira:

Do fã ao fandom: práticas interacionais internas de consumo

7 pesquisadores brasileiros que estão estudando fãs

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