Quais tipos de grupos eu posso estudar com etnografia em mídias sociais?

Artigo escrito pela prof. Débora Zanini, responsável pelo curso “Etnografia em Mídias Sociais

No texto passado conversamos um pouco sobre as grandes transformações que estamos vivendo em relação à comunicação humana. Como falado, isso tem gerado uma transformação tão rápida e profunda que diversos pesquisadores têm se dedicado a estudar estas mudanças. Aproveitamos também para apresentar dois grandes pensadores desta temática: Pierre Levy – filósofo francês da cultura virtual contemporânea – e Manuel Castells – sociólogo espanhol que contribui muito com o pensar desta nova sociedade em rede; dois grandes escritores que devem ser estudados por quem tem interesse de se aprofundar neste tema.

Como defendido por estes dois grandes pensadores, e por qualquer outro que estude esta temática, é consenso de que as transformações sociais são tão profundas que temos uma evolução cultural típica desta Nova Era da informação.

(Leia-se aqui evolução no conceito biológico do termo: Evolução, biologicamente falando, é o processo através do qual ocorrem as mudanças ou transformações nos seres vivos ao longo do tempo, dando origem a espécies novas. Ou seja, não há nesta palavra qualquer julgamento de valor de melhor ou pior: é uma palavra que simplesmente coloca que houveram transformações e mudanças ocorridas ao longo do tempo, mudando o objeto em si – no nosso caso, a cultura).

Surge hoje uma nova forma de comunicação: a Comunicação/Conversação Mediada pelo Computador (CMC). E, com ela, todos os espaços virtuais de troca e interação através da internet, como redes sociais onlines, fóruns, chats, entre outros. Novas relações, novos gêneros (e-gêneros), nova textualidade, novos comportamentos.

Assim, com toda evolução cultural em foco, nada mais natural de que a Etnografia esteja em alta – como já falado em outros textos, Etnografia é uma metodologia das ciências sociais utilizada para o estudo da cultura de grupos sociais.

E, ainda mais interesse do que aquele demonstrado em Etnografia, é o interesse em Etnografia aplicada em mídias sociais. Neste espaço virtual são, praticamente, infinitos o volume de informação e dados presentes que podem ser analisados – muito mais do que quando se faz uma pesquisa no universo off-line, por exemplo.

E infinitas também são as perguntas e curiosidades acerca da Etnografia aplicada em Mídias Sociais.

Assim, o objetivo deste texto é debater sobre uma das perguntas mais recorrentes que acontecem: É possível estudar qualquer grupo online com este método?

E a resposta é simples: não.

Não podemos perder de vista, nunca, que etnografia é um método da antropologia aplicado ao estudo da cultura de grupos sociais (sejam eles ‘online’ ou ‘offline’).

Dessa forma, a pesquisa etnográfica apresenta e traduz a prática da observação, da descrição e da análise das dinâmicas interativas e comunicativas como uma das mais relevantes técnicas.

E, para isso, temos dois grandes limitantes quando queremos fazer etnografia em ambientes onlines:

Limitante 1 – O grupo social de interesse a ser estudado precisar estar dentro das redes sociais e ser minimamente ativo;

Limitante 2 – Precisa-se que as condições de atividade online deste grupo deem dados de comportamento para a minha coleta.

Percebe-se que, a partir destes limitantes, não é apenas o grupo social que eu tenho interesse de estudar estar nas redes sociais para conseguir fazer uma pesquisa etnográfica: é preciso também que este público tenha tipos de interações e relações que me exponham dados de comportamento que eu possa coletar.

O que se quer dizer com isso?

Quer se dizer que: analisar apenas conteúdos que os usuários curtem e/ou compartilham de uma determinada Fanpage, por exemplo, não é fazer uma pesquisa etnográfica. É extremamente válido (e útil) fazer isso, por exemplo, quando se quer clusterizar grupos de pessoas que curtem determinadas marcas – mas isso não é pesquisa etnográfica.

Mais uma vez: não é porque a análise está saindo do âmbito quantitativo e entrando no âmbito do qualitativo que se está fazendo etnografia. Etnografia é apenas uma das inúmeras metodologias qualitativas de coleta e análise de dados.

Ou seja, se o grupo social que eu tenho interesse em analisar apenas interage de forma passiva com minha FanPage ou em um determinado grupo / fórum, por exemplo, não há dados comportamentais para se coletar.

E é neste momento que entra o que estamos chamando de Limitante2: o pesquisador, digamos assim, precisa ter certeza de que irá conseguir coletar opiniões, interações, troca de conteúdo, entre outros.

Se estes dois limitantes são superados, a chance de se conseguir realizar uma pesquisa etnográfica em mídias sociais é certeira.

Vamos a um exemplo prático:

Imaginemos que, por algum motivo, se faz necessário entender o comportamento de Idosos dentro do Facebook: seja por uma marca que tenha idosos como público-alvo; seja para suporte de alguma política pública voltada a este público.

A primeira coisa que precisamos pensar é: este público está presente e minimamente ativo no Facebook (limitante 1)?

Quando consultamos a ferramenta Audience Insights do Facebook (facebook.com/ads/audience_insights.), vemos que, no Brasil, há uma média de 3,5 milhões de pessoas ativas com mais de 60 anos nesta mídia social (15% do total da população idosa do Brasil).[1]

Assim, sabemos que Idosos estão dentro do Facebook em uma representatividade que nos surpreende.

Segundo passo: saber se esta população é ativa dentro do Facebook.

Ainda consultando o Audience Insights, percebe-se que este grupo é pouco ativo, porém ainda apresenta alguma atividade mínima em comentários e publicações curtidas.

facebook audience

Ou seja, apesar de ser um público presente, aparentemente é um grupo com pouca atividade nesta rede.

Porém, como estes dados são apenas de interações com Fanpages (e já falamos que este é um tipo de dado que não nos é interessante), ainda é necessário vermos se há algum grupo dentro do Facebook que tenha atividade de relação entre estas pessoas.

Em uma pesquisa rápida, o search do facebook nos mostra 2 grupos fechados com a temática Terceira Idade: o primeiro que se chama de fato ‘Terceira Idade’, com 18.858 membros e o segundo, chamado ‘Terceira Idade em São Paulo’, com 1.526 membros.

Escolhido o primeiro grupo, pela questão do volume de pessoas, é necessário ser feito uma análise de quais são as interações que ocorrem lá.

grupo facebook

Precisa-se, antes de tudo, mapear se há diálogos, debates, trocas entre estas pessoas. Adianta-se aqui que, infelizmente, neste grupo não há conversar, impedindo-nos de realizar uma pesquisa etnográfica neste meio. Há apenas postagens com curtidas e alguns comentários como ‘lindo’, ‘amei’, ‘lindas palavras’ (vocês sabem do que estamos falando 😉 )

Ou seja, pelo nosso caminho todo seguido, entende-se que não é possível realizar uma pesquisa etnográfica com idosos no Facebook.

O que se pode fazer – e o que aprendemos em nosso curso Etnografia em Mídias Sociais – é que se é possível utilizar algumas técnicas etnográficas de coleta de dados para alguns estudos. Mas é preciso ter claro que não é uma etnografia.

Porém, quando mudamos nosso público de Idosos para Mães de Recém-Nascidos, percebemos que o cenário muda completamente. Da mesma forma feita para Idosos, se você procurar por grupos de mães no Facebook, achará muitos – e, principalmente, com interações, conversas, trocas de experiências.

Neste novo contexto, é possível realmente perceber e estudar a rede que se forma de apoio, confidencialidade e ajuda entre estas mães nestes espaços. Ou seja, há dados comportamentais para se coletar e analisar.

Em resumo, o que queremos dizer com este texto é que, da mesma forma que uma pesquisa etnográfica não pode ser feita em qualquer lugar e com qualquer grupo, a pesquisa etnográfica aplicada em mídias sociais precisa também seguir um padrão para garantir a qualidade da coleta e das análises. Tendo meu interesse de estudo definido e meu grupo de interesse definido, preciso 1 – saber em quais locais online (principalmente redes sociais digitais) eu consigo encontrar este grupo e 2 – mapear e estudar o local exato de coleta para saber quais dados estarão disponíveis para análise.

Se o conjunto grupo social a ser estudado mais local em que estudarei este grupo não for bem casado, não é possível realizar uma pesquisa etnográfica. Ou seja, a pergunta “Quais tipos de grupos eu posso aplicar etnografia para estudar” só pode ser respondida com a análise de presença e atividade deste grupo dentro da rede social conjuntamente com o espaço de relação e trocas interpessoais.

Confira as próximas edições do cursos presenciais e Online de Etnografia em Mídias Sociais em São Paulo e em Brasília.

[1] Segundo o IBGE há 23 milhões de Idosos no Brasil (com mais de 60 anos).

 

 

 

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