Quatro abordagens para análise e pesquisa no Instagram

No livro SAGE Handbook of Social Media Research Methods, parte dos capítulos são dedicados a particularidades de plataformas específicas, como Weibo, Foursquare, Twitter e o Instagram. No capítulo sobre esta última plataforma, Linnea Laestadius realiza um relevante histórico e problematização das questões próprias de análise de imagem, texto, opiniões e hashtags. Citando Danah Boyd, a autora concorda que o Instagram oferece um alto nível de “interpretabilidade”. O conceito de “rich data” (dados ricos/densos) da Teoria Fundamentada se aplicaria perfeitamente ao que é publicado na plataforma, devido à ênfase em imagens e vídeos:

Rich data are so valued in qualitative research because they ‘afford views of human experience that etiquette, social conventions, and inaccessibility hide or minimize in ordinary discourse’

A tipologia de estudos de Instagram organizada no capítulo sistematiza colaborações de pesquisadores. Laestadius resume-as em quatro abordagens:

  • Abordagens quantitativas
  • Abordagens de Humanidades Digitais
  • Amostras pequenas (small data) combinadas com abordagens qualitativas
  • Interação direta com usuários do Instagram

 

Abordagens quantitativas

Na primeira abordagem, temos os estudos que se calcam sobretudo na capacidade computacional das ferramentas de processamento para analisar padrões de uso, utilização de tags, likes, comentários e hashtags. A pesquisadora cita a extrapolação de dados do Instagram em estudos que se debruçaram sobre a relação dos dados na plataforma e eventos exógenos como tráfego, visita a redes de alimentação e consumo de drogas. Exemplos seriam abordagens dos dados que descrevam apenas as hashtags mais usadas ou a topologia de uma rede de interações, antes das interpretações:

 

 

Humanidades Digitais e Cultural Analytics

As abordagens da área digital humanities tem como grande expoente o Lev Manovich. Traz similaridades com a abordagem quantitativa, mas aqui a distinção está em duas variáveis únicas: 1) são aplicados técnicas de computação visual e processamento de imagens para focar na mídia visual em si e não apenas nos metadados; 2) como resultado, visualizações interativas permite o leitor interagir com os conteúdos e padrões de forma viva. Diversos projetos em torno do laboratório do Manovich podem ser citados nesta categoria, sendo o Selfiecity um dos mais famosos:

Alguns dos estudos desenvolvidos pelo Labic/UFES podem ser aproximados a esta abordagem também, como a seguinte visualização de imagens de protestos:

 

Amostras pequenas (small data) combinadas com abordagens qualitativas (como análise de conteúdo)

 A abordagem baseada na análise profunda e interpretativa das imagens e textos de amostras humanamente gerenciáveis valoriza a granularidade. Aplicando técnicas de análise de conteúdo, semiótica, linguística e sociologia, os pesquisadores interpretam as imagens em seu contexto levando em conta histórico, usuário, público imaginado, elementos culturais, interlocução e outros fatores. Como resultado, diferentes categorias, enquadramentos teóricos e vieses podem ser adaptados.

A tela abaixo, de estudo que realizei, trata-se de um exemplo desta categoria. A análise da presença e ausência de elementos, enquadramentos, representações sociais, simbologia dos objetos e relação com marcas foram estudadas foto a foto, emissor a emissor e suas características. No nosso livro Monitoramento e Pesquisa em Mídias Sociais o capítulo sobre personas cita cases que usaram desta abordagem.

Nas palavras da autora, citando também Elizabeth Losh: 

small data approaches relying primarily on qualitative analysis offer ‘a granularity of detail that might otherwise be lost in dazzling large-scale data visualizations that value the quantitative over the qualitative’

 

Interação direta com usuários do Instagram

Por fim, mas não menos importante, estão as pesquisas que acessam diretamente os usuários através de questionários, entrevistas, etnografia e outros métodos de interação direta com os sujeitos. Aqui os dados do Instagram podem a) servir como proxy de agrupamento (exemplo: comparar usuários com alta taxa de selfies x usuários que publicam apenas fotos com fins artísticos)ou de demografia (pessoas que frequentam determinado local, por exemplo); b) podem ter seus significados e interpretações expandidos através de questões diretas sobre intencionalidades e público imaginado; ou c) podem ser aplicados métodos como trace based interview research para usar as fotos do próprio participante ou de outros como estímulo para conversa.

 

Estudo de Caso: cigarros eletrônicos no Instagram

Depois de discorrer sobre boas práticas para pesquisa, planejamento de coleta, importância e ancoragem dos comentários, privacidade e ética, a autora parte então para descrever um estudo de caso a partir de sua investigação sobre o uso de hashtags sobre cigarros eletrônicos como #ecig e #ecigarette. A autora estudou a subcultura do “vaping” através do Instagram e apresenta alguns dos resultados no capítulo. Infelizmente o trecho sobre o estudo é curto, mas há uma palestra dela em evento da Global Tobacco Control disponível na íntegra no YouTube:

Leia mais sobre a publicação nos nossos posts sobre o próprio SAGE Handbook of Social Media Research Methods e sobre Thickening no monitoramento e etnografia em mídias sociais.

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