Mapeando propagação de boatos no YouTube – Febre Amarela

por Isabela Pimentel*

Se, por um lado, o potencial das redes sociais e ambiente digital possibilitou o surgimento de canais da mídia não-oficial, outro fato também se fortaleceu: a produção, veiculação, circulação e compartilhamento de informações sem checagem em larga escala, as fake news e boatos.  Uma das redes sociais que mais tem crescido no país e sido vista como espaço para compartilhamento de experiências, depoimentos e visões é o YouTube, que, de acordo com o estudo Insights 2017 atingiu, em 2017, a marca de 98 milhões de usuários mensais no Brasil, com um adicional de 35 milhões nos últimos dois anos. De acordo com a mesma pesquisa, divulgada pela assessoria de imprensa da plataforma, 46% dos participantes acreditam que os vídeos postados têm conteúdo relevante. Em relação aos hábitos de consumo nessa mídia, 47% dos respondentes declarou acessá-la em busca de novidades.

Notícias falsas no YouTube

Em meio à avalanche de notícias falsas e as recentes declarações do Facebook e Google sobre a adoção de práticas de combate às fake news, o YouTube anunciou, no início de julho deste ano, que haverá inclusão de textos de artigos de fontes confiáveis ao lado de alguns vídeos. O recurso de “sugestões de informação” funciona da seguinte maneira:  quando um tópico tem um número significativo e crescente de vídeos no YouTube, a exemplo de vídeos sensacionalistas e questionadores da ciência, a plataforma apresenta um novo ponto de vista baseado em artigos, com possibilidade de inclusão de informações adicionais.  Além dessa novidade, a página inicial do YouTube ganha uma seção dedicada a notícias vinda de fontes com credibilidade e as páginas dos canais serão cruzadas com histórico das referências em outras publicações. Com isso, os resultados das buscas passam a ser ordenados pela credibilidade da fonte.

Dessa forma, foi realizada uma análise para compreender como alguns elementos do YouTube contribuem para a disseminação de boatos sobre a febre amarela. Para a análise foram considerados: (i) canais não-oficiais na plataforma, (ii) a publicação de vídeos baseados no testemunho/experiência, (iii) e a existência de um discurso que se opõe à primazia das fontes científicas. A análise foi realizada nos meses de março e abril de 2017, com a seleção das postagens que mais tiveram interações e viralização. Foram verificadas as taxas de engajamento dos conteúdos através das curtidas, compartilhamentos e comentários, além da reprodução desses materiais em outros canais e plataformas. O resultado são grafos para representar essas interações entre os conteúdos dos canais e os comentários dos seguidores.

Se consideramos o alcance dos vídeos e a facilidade de acesso ao YouTube, várias fake news sobre a vacina febre amarela viralizaram na plataforma, sendo posteriormente compartilhadas em sites sensacionalistas, páginas e grupos do Facebook.

Como tais vídeos, marcados por um discurso testemunhal, baseado na experiência, contribuíram para a viralização dos principais boatos sobre a vacina febre amarela em um momento de surto?  Quais são as principais marcas do discurso presente nesses materiais que ajudam a fortalecer a propagação de uma notícia ainda não verificada? Como esses canais, enquanto mídia não-oficial, questionam a autoridade científica das ditas fontes oficiais? Que recursos da linguagem audiovisual são utilizados para criar um simulacro de jornalismo e reforçar a autoridade?

A disputa pela verdade na arena digital

Com a crise de credibilidade das instituições tradicionais e advento destes novos pólos emissores, o próprio conceito de verdade é posto em xeque. O conceito de Foucault de “regime de verdade” ajuda a compreender esse momento: cada sociedade acolhe, de acordo com as relações de poder, os enunciados que são considerados verdadeiros e falsos.  O contexto atual é caracterizado por uma mudança do regime de verdade baseado na crença e total confiança nas instituições para outro, marcado pela esperança e valorização da experiência pessoal, do testemunho e da intimidade.

A valorização dessa autoridade experiencial e do aspecto testemunhal acaba contribuindo para o ganho de visibilidade e alcance de vídeos e notícias produzidos sem checagem ou embasamentos em fatos comprovados cientificamente. O que atrai, convence e encanta é exatamente a linguagem utilizada, a forma narrativa, a intimidade performada e uma relação de proximidade que se tenta forjar por meio de recursos retóricos.

Esse efeito de verdade que as fake news tem encontra eco em um momento marcado pelo excesso de informação e pressa no compartilhamento, que muitas vezes, acaba sendo feito por impulso e sem qualquer tipo de apuração.  Diante de uma pluralidade tão grande de fontes de informação, em qual delas confiar? Como distinguir a informação confiável da falsa? O uso de uma linguagem mais próxima, marca da economia da experiência, pode representar um ponto de destaque, atraindo o público através da criação de um simulacro de verdade e realidade.  Diante dos novos regimes e espaços de verdade, na abordagem foucaultiana, quais relações de poder estão por trás da crença e propagação de notícias falsas?  Afinal, o que move a economia do clique?

Boatos sobre febre amarela em vídeos: estudo de caso 

No auge da crise de febre amarela, em 2017, havia dois tipos de vídeo circulando no YouTube especificamente sobre a vacina:  o primeiro, baseado em experiências pessoais, testemunhos e relatos de quem recebeu o imunizante; o segundo, uma espécie de simulação de jornalismo, reportagem televisiva ou documentário.  Para entender um pouco mais sobre como os vídeos postados sobre a vacina febre amarela no YouTube no período de março e abril de 2017 viralizaram, foram selecionados três para fins comparativos. O que motivou a escolha dos mesmos foram os requisitos temporal (postagem precisava ser nos meses de viralização de notícias que associaram a vacina contra a doença a uma política de extermínio da população brasileira), discursivo (os conteúdos escolhidos se aproximavam do gênero testemunhal e de depoimento) e audiovisual (uso de imagens e vídeos jornalísticos como reforço ao discurso).  O objetivo principal da seleção dos três vídeos é encontrar traços comuns em fake news que são compartilhadas nos meios digitais e recorrem a elementos que simulam uma linguagem jornalística para aumentar sua credibilidade, alcance e poder de persuasão.  Além dos critérios acima explicitados, foram considerados também o alcance das publicações, taxa de engajamento, visualizações, número de assinantes no canal e frequência de publicação de novos vídeos.   A partir desses casos, um guia para identificação de fake news em vídeo compartilhados no YouTube sobre saúde será estruturado.

Vídeo 1 – Surto de Febre Amarela: plano de redução populacional no Brasil?

Sobre o canal

Publicado no canal do Daniel Lopez no dia 23 de março de 2017, o vídeo recebeu 1400 curtidas, 281 comentários e 38.068 views.  Atualmente, o canal conta com 44 mil assinantes e são postados vídeos todos os dias, às 10h da manhã.  Dentre as principais temáticas dos conteúdos produzidos, estão assuntos sensacionalistas e alarmistas, sempre relacionados a algum acontecimento recente que está em alta na mídia.

No caso especifico do vídeo Surto de Febre Amarela: plano de redução populacional no Brasil? com duração de seis minutos, os principais recursos utilizados pelo autor são:

Pela análise do vídeo, percebe-se que o autor recorre a uma linguagem informal para se aproximar do espectador e hesita entra uma atribuição indefinida (‘estão dizendo’) com o uso da terceira pessoa do plural (‘estão recomendando’) e um posicionamento mais claro, em que afirma que seu relato é verídico pois deriva de sua experiência pessoal.
Para aumentar a verossimilhança, são utilizadas imagens de banco e vídeos com trechos de telejornais que noticiaram o fato.

Veja no grafo as interações entre o perfil no YouTube e os principais influenciadores que comentaram no vídeo:

Vídeo 2 – VACINA de febre amarela CAUSA EFEITO COLATERAL e governo INSISTE que população tome

Sobre o canal

Publicado no canal Desperte – Thiago Lima no dia 3 de abril de 2017, o vídeo recebeu 6400 curtidas, 756  comentários e 156.008 views.  Atualmente, o canal conta com 183 mil assinantes e são postados vídeos semanalmente.  Dentre as principais temáticas dos conteúdos produzidos, estão assuntos relacionados à política brasileira e religião, especialmente sobre nova ordem

Pela análise do vídeo, percebe-se que o autor recorre a uma linguagem com marcas temporais para situar o espectador, afirmando que o problema em questão é algo dos dias de hoje. Ao mesmo tempo em que afirma que tem uma informação valiosa para passar aqueles que não o conhecem e reforça sua missão de levar esclarecimento e alertar as pessoas, o narrador utiliza a afirmações declaratórias e atributivas, que o afastam de cena como “homens de elite estão” e “eles tomaram uma decisão” e por vezes mostra hesitação no uso do tom condicional.  Novamente, vídeos de telejornais e imagens de sites são utilizados como reforço à ‘verdade’ que o vídeo tenta transmitir. Em alguns momentos, o narrador declara seu papel missionário de propor um novo olhar sobre o tema, contra a autoridade científica hegemônica. Essa versão oficial da ciência não seria verdadeira e é tratada no vídeo como um inimigo oculto.

Veja no grafo as interações entre o perfil no YouTube e os principais influenciadores que comentaram no vídeo:

Vídeo  3   –  Informativo sobre febre amarela

Sobre o canal

Publicado no canal do Jaime Bruning no dia  5 de abril de 2017, o vídeo recebeu 3200 curtidas, 346 comentários e 86.586 views. Atualmente, o canal conta com 63 mil assinantes e são postados vídeos sem uma periodicidade definida.  Dentre as principais temáticas dos conteúdos produzidos, estão assuntos relacionados a curas naturais, remédios caseiros e o poder da mente.

No caso especifico do vídeo Informativo sobre febre amarela, com duração de sete minutos, os principais recursos utilizados pelo autor são:

Pela análise do vídeo, percebe-se que o autor recorre à uma linguagem com um tom pessoal para se posicionar como uma autoridade, alguém que foi escolhido e designado para cumprir a missão de levar esclarecimento à população. Ao mesmo tempo em que se aproxima e se posiciona como autoridade, Bruning também se afasta ao afirmar que “os outros não sabem o que fazer”.   Frases de efeito, imperativas e afirmativas também são recursos retóricos para dar mais credibilidade ao discurso.
Ao contrário dos demais vídeos estudados, esse não recorre a vídeos nem imagens de apoio: o curioso é a presença estática de uma imagem do próprio terapeuta, que se posiciona como autoridade que revelará a verdade, que difere do discurso cientificista da mídia.

Veja no grafo as interações entre o perfil no YouTube e os principais influenciadores que comentaram no vídeo:

*Isabela Pimentel é Mestranda em Criação e Produção de Conteúdos Digitais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e estuda os impactos dos influenciadores no ciclo de compartilhamento de informações sem checagem no Twitter. Em 2017, concluiu o curso Etnografia em Mídias Sociais pelo IBPAD.

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