Como resistir às teorias antivacina hoje? Alguns caminhos na comunicação

Podemos reconhecer que hoje vivemos no país uma das maiores tragédias por conta da pandemia do novo coronavírus. Apesar do diagnóstico sobre os desafios da vacinação contra a covid-19 em um contexto cercado pela desinformação ser necessário, são poucas as iniciativas voltadas à apresentação de soluções para o que vivemos. Neste sentido, o ensaio de Wladimir Gramacho, professor da Universidade de Brasília e coordenador do Centro de Política e Saúde Pública da mesma universidade, e Max Stabile, diretor do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD), publicado no jornal Nexo, caminha nesta direção.

Estabelecer algumas tentativas é uma das propostas dos autores. No texto, eles apontam que hoje os conteúdos desinformativos e as teorias da conspiração estruturam e produzem desconfiança na ciência e em relação às medidas de contenção da doença Sars-CoV-2 no território nacional. Porém, com o avanço das campanhas de imunização pelo mundo e no Brasil, as vacinas se tornaram o alvo da vez. Neste caso em específico, Gramacho e Stabile evidenciam que os grupos de ativistas antivacina são hoje grandes e relevantes na sociedade, o que afetaria a possibilidade de alcançarmos, no futuro próximo, imunidade da maioria da população. Assim, pensar em estratégias de comunicação envolveria não apenas convencer as pessoas que não são antivacinas, como também aqueles que são contrários aos imunizantes. 

Para isso, eles citam como uma das saídas o uso das ‘correções eficazes’, uma oportunidade para enfrentar os discursos da desinformação. A partir das chamadas ‘refutações balanceadas’, seria possível chegar a um cenário em que haja espaço para o contraditório, um diálogo que seja produtivo no combate à desinformação. Um dos aspectos destacados pelos autores no movimento é o encorajamento do ceticismo. Em todo momento é incentivado um questionamento que, na realidade, não se pauta numa tentativa de construir algo melhor ou crítico, mas de invalidar conhecimentos já estabilizados pela comunidade científica. 

Proposta semelhante a essa pode ser encontrada no texto da professora Tatiana Roque sobre negaciosmo no poder. Para ela, a existência dos “mercadores da dúvida” compõe hoje um dos elementos da crise da verdade na sociedade. Ao instituírem falsas controvérsias e dúvidas sobre os processos científicos, a pesquisadora conta que representantes de indústrias do cigarro nos anos 90 conseguiram nivelar o debate sobre os problemas de saúde em relação ao fumo a um nível de opinião ou de polêmica, como se fosse uma questão de “ouvir os dois lados”. Podemos perceber que algo semelhante ocorre hoje no país. 

Grafos do trabalho do trabalho de Felipe Soares e Raquel Recuero. Na imagem, o azul corresponde ao ‘grupo controle, enquanto que em vermelho temos os links com títulos que podem levar a desinformação.

O debate de Roque é acompanhado também de pesquisas recentes sobre o modo como a própria imprensa profissional também “contribui”, ainda que não intencionalmente, para o atual quadro de desinformação nas mídias sociais. Os pesquisadores Felipe Soares e Raquel Recuero, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, exploram em um artigo recente como a grande mídia tradicional ajuda a distribuir desinformação sobre a covid-19 de acordo com os títulos das matérias. Por meio da análise de 20 links compartilhados no Facebook, sendo 10 deles contendo títulos com alto potencial para contribuir com a desinformação, e outros 10 como ‘grupo controle’ (que não contribuir com a desinformação), eles observaram que os grupos que compartilham títulos desinformativos raramente compartilham outros links da mídia tradicional. Constatou-se que links ou títulos que possuem informações equivocadas sobre a covid-19 contribuem para desinformar as pessoas nas mídias, o que deveria levar jornalistas a redobrar a atenção a esse quesito. 

A resistência em relação às vacinas também é incentivada quando Stabile e Gramacho abordam a desorganização do governo na compra das doses de imunizantes. Entre os apoiadores do atual presidente, há uma clara oposição às vacinas, como também às medidas de segurança, como isolamento e uso de proteção facial. É o que revela o mais recente relatório da pesquisadora Patrícia Rossini sobre a desinformação em relação à covid-19 no Brasil. Na pesquisa realizada, pessoas com espectro político à direita tendem a confiar muito mais no discurso do atual governo que pessoas de esquerda. Além disso, pessoas do espectro da direita têm maior propensão a evitar ou desconsiderar notícias sobre a covid-19 no noticiário.

Gráficos do relatório divulgado pela pesquisadora Patrícia Rossini. Na imagem, observamos a proporção de pessoas que evitam notícias sobre a covid-19 a depender do espectro político.

As duas pesquisas destacadas acima reforçam a necessidade de um jornalismo profissional que seja crítico em relação à produção das notícias e tenha um cuidado adicional nas práticas profissionais. Para Gramacho e Stabile, ampliar o alcance de informações de qualidade e com argumentos melhores, inclusive entre grupos antivacina, é um dos caminhos para resistir hoje e vislumbrar outros tempos.

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