Análise de emoções nas mídias sociais: a etnografia como método de pesquisa para este campo de estudo

 

O estudo de emoções, já muito famoso e clássico em algumas áreas, tem ganhado particular destaque em alguns campos das ciências humanas nestas últimas décadas. Sociologia, publicidade, midialogia – entre várias outras – tem incluído em suas análises a emoção como um fator importante para entender determinadas ações e comportamentos humanos.

Um dos estudos recentes mais famosos sobre emoções – e que reacendeu o interesse desse tipo de pesquisa na área acadêmica – foi desenvolvido e publicado por Seth D. Pollak (2009) no artigo ‘Recognizing emotion in faces: developmental effects of child abuse and neglect’, em que ele analisou como crianças que sofreram abusos físicos e mentais intensos percebiam e comunicavam as emoções expostas através do rosto. As crianças foram estimuladas com imagens que retratavam o desdobramento das expressões faciais, desde emoções neutras ao pico de emoções de raiva e fúria, por exemplo. A ideia era entender a partir de qual ponto do conjunto de micro-expressões faciais que as crianças conseguiam perceber a que emoção aquela imagem representava.

As crianças abusadas reconheceram com precisão e de forma muito mais rápida as expressões de cólera/raiva já no início da formação da expressão facial, quando ainda pouquíssimas pistas fisiológicas estavam disponíveis nas imagens. A velocidade do reconhecimento das crianças foi associada, pelos pesquisadores, com o grau de raiva e hostilidade a que aquelas crianças estavam expostas na convivência abusiva com seus pais. Estes dados destacaram para os pesquisadores as maneiras pelas quais a aprendizagem perceptiva pode moldar o momento da percepção emocional nas crianças.

Exemplo de estímulos faciais que as crianças foram expostas aos modelos de construção de medo, tristeza, felicidade, surpresa e raiva (POLLAK, 2009)

Ainda dentro do campo do estudo das emoções, mas indo para a área de ação social, há teorias e linhas de pesquisa que defendem que diversas ações humanas e seus comportamentos sociais podem ser descritos e entendidos pelas diferentes emoções sentidas pelos indivíduos em momentos específicos. Visto desta forma, podemos considerar que “as emoções (ao lado de outras coisas, obviamente) são o lado sensível dos valores e, como tal, são um elo importante entre valores e ações” (EYERMAN, R. 2007, p. 42).

Emoções provocam respostas nas pessoas que as sentem e que, por sua vez, levam à ação, à reação ou, em alguns momentos, à não-reação que, em sentido oposto aos demais, é uma sensação de incapacidade de agir por estar paralisado por medo ou pavor (IDEM, p. 42). Esse é um tipo de análise que tem crescido muito no campo de estudo dos novos movimentos sociais, para citar um exemplo, pois muitos acreditam que as emoções compartilhadas pelas pessoas, como o sentimento de injustiça, por exemplo, fazem com que elas se engajem e militem em movimentos de bandeiras humanistas.

No caso de pesquisas que fazem a correlação entre emoções e comportamento nas mídias sociais, há vários estudiosos que defendem que os comportamentos dentro destas ambiências são, muitas vezes, ditados por sentimentos e emoções de raiva, felicidade, compaixão. Alguns estudiosos defendem que o fenômeno de ‘viralização‘ de um conteúdo, por exemplo, pode ser explicado pela emoção que as pessoas sentem ao entrar em contato com ele e sentem a necessidade de compartilhar.

Bom exemplo disso é o estudo realizado por Marco Guerini e Jacopo Staiano (2015): ‘Deep Feelings: A Massive Cross-Lingual Study on the Relation between Emotions and Virality’, em que os autores entendem e mapeiam quais são os tipos de emoções que estão relacionadas a determinados tipos de conteúdo textual e, se essas emoções específicas, fazem com que seja iniciado o processo de viralização deste conteúdo dentro das mídias sociais. Basicamente, os autores se propuseram a comparar vários fenômenos virais que ocorreram nas mídias sociais para entender se eles são consistentemente afetados pelas emoções e se são afetados de maneira igual por elas.

E o que a etnografia tem a ver com isso?

Como já vimos em alguns textos do blog, a etnografia é um método consagrado das Ciências Sociais – utilizado em maioria por pesquisadoras e pesquisadores da Antropologia – que vem sendo cada vez mais aplicado em ambiências digitais, principalmente em mídias sociais. O principal objetivo na utilização deste método é entender comportamentos, simbologias, culturas, trocas de grupos específicos que se organizam e se encontram presentes nas mídias sociais.

Assim, quando pensamos em estudar comportamentos de grupos específicos e entender como acontece as relações e as emoções trocadas dentro de uma comunidade online, por exemplo, é natural se pensar na etnografia como uma metodologia de base para a pesquisa.

A etnografia parte de alguns princípios básicos, sendo que um deles é a Observação e a Associação ao determinado grupo de interesse de estudo, práticas essenciais para o entendimento das trocas emocionais ocorridas em uma comunidade.

Bibliografia
EYERMAN, Ron. Emotions and social movements. In: FLAM, Helena; KING, Debra (org.). Emotions and social movements. Routledge, 2007.

GUERINI, M. STAIANO, J. WWW 2015 Companion, May 18–22, 2015, Florence, Italy. ACM 978-1-4503-3473-0/15/05. http://dx.doi.org/10.1145/2740908.2743058.

POLLAK, S. D; MESSNER, M; KISTLER, D. J; COHN, J. F. Recognizing emotion in faces: developmental effects of child abuse and neglect. Feb 1. Published in final edited form as: Cognition. 2009 Feb; 110(2): 242–247. Published online 2008 Dec 6. doi: 10.1016/j.cognition.2008.10.010

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