Relatório analisa a convergência da extrema direita nas mídias sociais

Nos últimos anos muito tem-se discutido sobre movimentos políticos, polarização entre direita e esquerda e assuntos relacionados ao pensamento extremista que toma cada vez mais lugar na mídia, redes sociais digitais e no discurso de políticos pelo mundo. A eleição de Donald Trump, no ano de 2016, que produz discursos ódio abertamente e manifestações como a que aconteceu no último mês de agosto em Charlottesville, EUA, de grupos de extrema direita, mostram que existe uma articulação forte entre grupos com esse viés e que a internet ajuda no processo de colaboração e organização para disseminar ideologias e ganhar novos adeptos, mesmo que não tão radicais.

O Institute for Strategic Dialogue, organização que atua há 10 anos lutando contra ideologias extremistas baseadas em ódio, produz estudos no sentido de compreender como se organizam e agem esses grupos que possuem tecnologia sofisticada, ajuda financeira de empresas e poder de articulação para ganhar novos simpatizantes e adeptos às suas causas.

Recentemente publicaram o estudo ‘The Fringe Insurgency – Connectivity, convergence e mainstreaming of the extreme right’,  que mapeia a geolocalização e o ecossistema de crescimento da “nova” extrema direita que percorre a Europa e os Estados Unidos. Ao examinar os pontos de colaboração e conectividade entre os grupos de diferentes objetivos de extrema direita, também pode-se encontrar novos movimentos, influenciadores principais e subculturas online e offline.

A metodologia utilizada foi baseada na análise de 5000 conversações em mais de 50 plataformas digitais, para e mapear a extrema direita e o seu sistema, categorizando diferentes conexões em clusters ideológicos e geográficos. Em uma combinação entre análises quantitativa e qualitativa para explorar a conectividade e convergência global da extrema direita.

As definições das palavras precisaram ser entendidas em diferentes contextos pois em cada país existem definições diversas para um mesmo termo. Para resolver a questão, utilizaram as definições do livro “The Ideology of Extreme Right” do autor Cas Mudde que define os movimentos de extrema direita como caracterizados por, pelo menos, 3 das 5 frentes: racismo, xenofobia, nacionalismo, anti-democracia, e defesa do estado totalitário.

A análise utilizou 3 estudos de caso para examinar os métodos e implicações da organização e ação da extrema direita. O primeiro, apresentado detalhadamente a seguir no post é sobre a ação “The Defend Europe”. E que resultou na compreensão de tendências mais amplas partidas das manifestações, ideologias, metas e estratégias dos movimentos da extrema direita e que refletem narrativas comuns entre as plataformas associadas às suas ideias.

1º caso: The Defend Europe

O primeiro estudo é focado na operação “The Defend Europe” liderada por membros da ‘Generation Identitaire’, em que os ativistas fretaram um navio para interditar a chegada de refugiados da Líbia. Os defensores explicam a necessidade de ação pela justificativa de que os europeus estão perdendo a sua segurança, e seus meios de vida estão em risco, pois os europeus se tornam a minoria em sua própria casa.
A narrativa recebeu grande apoio da direita e extrema direita, e chamou a atenção da imprensa e de representantes de entidades de extrema direita pelo mundo.

Este estudo obteve como foco as ligações entre a ideologia e a questão das fronteiras que têm sido discutidas nos últimos tempos. A missão gerou engajamento e o estudo geolocalizado serviu para compreender a expansão do assunto em cada país. Esses números não significam apenas pessoas ligadas aos movimentos, mas usuários, que por alguma razão, se identificaram com a causa, principalmente o medo em relação à chegada de refugiados . Este engajamento também proporcionou um crowdfunding para arcar com os custos da missão.

As hashtags mais utilizadas para apoiar a ação trouxeram insights que conseguiram compreender os usuários separando-os por motivações detectadas para o apoio à missão foram: o pensamento anti-esquerda (relacionados ao Marxismo Cultural), teorias da conspiração (discurso anti-semita), preocupação com a preservação da cultura (nacionalismo, medo da miscigenação da herança cultural dos refugiados), anti- estabilidade (a crença de que o país não conseguiria acolher os estrangeiros sem que resultasse em uma crise econômica e política em seu país), anti-imigrantes (medo de que os refugiados trouxessem violência, assaltos, violência sexual para o país), medo de terrorismo e o medo do ‘white genocide’ (medo de que os brancos se tornem minoria na Europa).

Este caso demonstrou como, ao se unir no mundo virtual, os grupos conseguem agir organizadamente e de maneira estratégica, conseguindo contar com uma parte da população que se identifica com algum dos tantos ideais, de uma maneira fragmentada. O que é preocupante, pois muitos indivíduos que não se posicionam politicamente, sentem-se mais atraídos pelas missões do Generation Identitaire, por um ponto em comum (como exemplo se contra a entrada de refugiados em seu país), e começam assim a adotar os discursos e argumentos do grupo.

O 2º caso é focado em “Unite the right” grupo que age nas redes sociais digitais no intuito de mobilizar os grupos e fazer importantes alianças para a disseminação da ideologia de extrema direita. Assim como a manifestação em Charlottesville que foi majoritariamente organizada por plataformas como Facebook, Twitter, Reddit entre outras.

(Crédito da imagem: CNN.com)

Parte da estratégia dos grupos para reunir novos adeptos é utilizar menos figuras icônicas e retórica própria da extrema direita. Fatos característicos da pesquisa etnográfica realizada nos canais digitais apontam que 58% dos participantes são homens, brancos, de 14-18 anos e votaram no Trump. E um fato particular é que os nativos da geração Z (nascidos entre 1995 a 2010) tem se sentido atraídos pela extrema direita. Suas maiores motivações são racismo, anti-esquerda, liberdade de expressão, herança cultural e discursos anti-estabilidade.

Já o 3º caso se atenta ao evento das eleições na Alemanha, já que as eleições na Europa também tem demonstrado um reflexo da disseminação da extrema direita e, na Alemanha, o partido AFD (Alternativa para a Alemanha) surpreendeu ao ficar em 3º lugar com 13,3% na concorrência presidencial. Para esse estudo, os ativistas da ISD se infiltraram em chats de grupos fechados para compreender como era estruturada a estratégia utilizada para influenciar e confundir os demais usuários. Foram descobertos conteúdos disseminados com mentiras sobre os demais candidatos, a criação de memes, infográficos e compartilhamento de hashtags. As estratégias também contaram com formas de esconder o endereço de IP e na criação de contas falsas e de difícil rastreamento no Twitter.

Pontos de conexão e convergência

O cruzamento entre os estudos mostrou o forte alicerce que a extrema direita está construindo e que ultrapassa barreiras geográficas. Há três pontos que se conectam ao concluir o estudo:

A convergência por plataformas (digitais) : encontros e conversações online fazem com que os usuários identifiquem interesses extremistas em comum e migrem a conversa para plataformas mais reservadas e possibilitam o surgimento de novas alianças.

A convergência por ideologia: a identificação de pontos em comum nas ideologias e objetivos de cada grupo e a união de interesses. Esse aspecto fica claro no gráfico a seguir:

Convergência Tática: A estruturação da extrema direita para se unir com outros grupos e lutar por objetivos em comum, mesmo quando os movimentos não lutem 100% pelos mesmos ideais. Isso nas redes sociais digitais se divide entre conteúdos de entretenimento sobre esta ideologia, visibilidade e sucesso no alcance e o anonimato para as negociações estratégicas.
Você pode ler o estudo completo aqui!

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