Conversação, discurso político e memória nas mídias digitais

 

Colaboração da pesquisadora Mariana Passos, Doutoranda em Comunicação Social pela Escola de Comunicação e Artes/USP

As mídias digitais se transformaram em ferramenta importante para a análise e compreensão dos discursos políticos circulantes na sociedade contemporânea. A facilidade de coleta e armazenamento de dados faz com que seja de suma importância utilizar tais mídias como referencial empírico nas pesquisas atuais em comunicação política.

Twitter, Facebook, entre outras mídias de mesmo funcionamento abrem espaços de conversação pública que são grande fonte de informação para entender como as grandes narrativas políticas são mantidas nos dias atuais.

Um ponto interessante quando se pretende pesquisar sobre a relação entre mídias digitais e narrativa política é procurar compreender como se dá a transmissão do discurso por meio da conversação online. Segundo Maia (2008), a conversação cotidiana, que se dá na esfera de visibilidade pública é tão importante quanto os debates que efetivamente geram efeitos sob a política.

(…) o engajamento dos indivíduos em conversações políticas é importante para o processamento de informação, no sentido de ampliar o entendimento eu os participantes têm sobre determinado assunto. (…) pessoas que discutem política com outras são mais aptas a adquirir uma compreensão mais aprofundada sobre fatos políticos e sobre as informações que recebem por meio dos media do que aquelas que não o fazem. (MAIA, 2008, p. 205)

Gomes (2003) salienta que a conversação civil não pode ser uma mera conversa fiada caso queiramos admiti-la com valor político. Mas reforça a ideia de que é inegável que a discussão deve se estender ao público como um todo e não se limitar a apenas discussões entre especialistas. Caso isso não ocorra, perde-se todo o sentido da esfera pública como domínio social da formação da opinião e da vontade coletivas. “É a visibilidade que ancora a discutibilidade na democracia.”. (GOMES, 2008, p. 162). A conversação cotidiana da qual tratamos aqui, portanto, é de suma importância para os estudos das mídias sociais e seus impactos na sociedade como um todo.

Como bem aponta Recuero (2012), a conversação em rede na Internet permite dar maior visibilidade e publicidade ao que é dito. A circulação de informação se amplia para além das fronteiras da rede criada já que outros atores têm acesso ao que é dito mesmo não fazendo parte daquelas conexões onde a conversa se dá.

planalto mídias sociais

As conversações em rede “(…) permeiam diversas redes sociais, recebendo interferências e participações de indivíduos que, muitas vezes, não estão sequer conectados aos participantes iniciais o diálogo.”. (RECUERO, 2012, p. 123).

Um exemplo dessa amplitude da conversação são as hashtags do Twitter que fazem com que a conversação se torne “buscável” (Recuero, 2012), ou seja, pública. Qualquer um que tenha acesso ao Twitter, mesmo que não esteja participando da conversa sobre determinado assunto, tem a capacidade de coletar informações sobre determinada conversação e assim pode, por sua vez, transmitir o que está sendo dito naquela conversa para a rede social a qual efetivamente pertence.

É a partir da ampliação e da capacidade de atingir outros públicos e outras redes que a conversação cotidiana online se torna muito propícia à conservação da memória e das grandes narrativas políticas contemporâneas. O que se pretende compreender com o conceito de memória é a capacidade que os discursos políticos possuem de se manter nas conversações cotidianas – o que pode gerar ganhos ou perdas a curto ou longo prazo para determinadas ideologias ou projetos partidários específicos.

A memória resulta da transmissão de um capital de lembranças e esquecimentos, sendo assim, a transmissão é essencial para o compartilhamento e é capaz de fundar as representações de uma identidade coletiva. Transmitir é mobilizar a memória e sem essa transmissão não há nem socialização nem educação.

Outro aspecto importante em relação à memória citado por Candau (2011) é a exteriorização da memória – e é nesse aspecto que é possível falar das mídias digitais como artifícios que exteriorizam a memória contemporânea. Segundo o autor, a memória não mais se encontra apenas na capacidade cerebral, o homem inventou outras formas exteriores de estocagem das lembranças, ou seja, o homem passou a “fazer memória”. A escrita, de acordo com o autor, é a forma mais evidente dessa exteriorização.

O que se deve também levar em conta é a diferença entre os discursos circulantes: consideremos a macro-narrativa como a narrativa oficial, a que se pretender ser ouvida pelos governantes, atores políticos e formadores de opinião, e as micro-narrativas como os discursos proferidos nas conversações corriqueiras, nas trocas de mensagens e postagens entre os cidadãos comuns. É no entrelaçamento entre as duas narrativas que se pode fazer inferências mais precisas sobre a conservação dos discursos e da memória política de determinado partido, ator ou figura púbica política.

memória

A coleta, mensuração e análise de dados das mídias digitais pode e deve ser um processo constante nas pesquisas em memória e discurso político atuais. Toda conversação pública que se dá nesses meios pode ser fonte importante de informação tanto para os governos quanto para os próprios cidadãos. Compreender a circulação dos discursos a partir dessa análise de redes pode enriquecer pesquisas acadêmicas e de mercado.

 

REFERÊNCIAS

CANDAU, Joël. Memória e identidade. Trad. Maria Letícia Ferreira. São Paulo: Contexto, 2011.

GOMESWilsonDa Discussão à Visibilidade. In: Gomes, W.; MAIA, R. C. M. Comunicação e Democracia: problemas & perspectivas. São Paulo: Paulos, 2008. p. 117-162

MAIA, R. C. M. Conversação cotidiana e deliberação. In: Gomes, W.; MAIA, R. C. M. Comunicação e Democracia: problemas & perspectivas. São Paulo: Paulos, 2008. p. 195-219

RECUERO, Raquel. A conversação em rede: comunicação mediada pelo computador e redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2012

RECUERO, Raquel. Redes Sociais na Internet. 2ª ed – Porto Alegre: Sulina, 2011

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