Do fã ao fandom: práticas interacionais internas de consumo

por Eloy Vieira, professor no curso online Fãs, Segunda Tela e Marketing.

Imagem: OFuxico.com

“[…] tornou-se impossível discutir consumo da cultura popular sem fazer referência a fandom ou às teorias de fãs tanto quanto é quase impossível encontrar rincões da vida pública que não são afetados por eles” (SANDVOSS, 2005, p.3)

Essa citação do Sandvoss, traduzida livremente a partir de um trecho de seu livro “Fans: The Mirror of Consumption”, é, sem dúvidas, emblemática. Apesar de já ter mais de 10 anos, segue sendo bastante contemporânea para qualquer um que pesquise ou trabalhe com mídia, comunicação ou cultura. Se alguns anos atrás os produtores resistiam à influência dos fãs em suas obras, agora – especialmente aqueles do ramo do entretenimento – abraçam, incorporam e até estudam seus fandoms para entender melhor os hábitos de consumo e comportamento deste segmento tão importante de suas audiências.

Mas afinal…

Imagem: Reprodução (Yahoo Respostas)

De forma bem genérica, não é nada muito complexo mesmo. O termo vem do inglês e é um acrônimo de “fan” (fã) e “kingdom” (reino), ou seja, “reino de fã” em tradução livre. Atualmente, o termo ganhou muita popularidade no Brasil por designar principalmente os grupos de fãs de ídolos da música ou personalidades da mídia como nas mídias sociais como, por exemplo, os beliebers (Justin Bieber), as lovatics (Demi Lovato), os little monsters (Lady Gaga), as neymarzetes (Neymar), as tirulipas (Sophia Abraão), entre tantos outros. Mas, na verdade, o termo é um pouco mais abrangente e pode ser aplicado a qualquer grupo de pessoas que são fãs de algum produto cultural em específico, seja um astro da música, uma série de TV, uma franquia literária ou cinematográfica.

E, para entender o que é um fandom, nada mais justo do que retomarmos a uma das obras mais influentes dos estudos de fãs: “Textual Poachers” – que chegou ao Brasil em edição traduzida como “Invasores de Texto” em 2015. O livro lançado nos Estados Unidos nos anos 90 influencia pesquisas até hoje por ter sido fruto de um trabalho empírico pioneiro e que traz dados muito importantes sobre os fãs. Na obra é possível encontrar algumas características básicas que um fandom deve possuir para ser caracterizado como tal de acordo com a pesquisa feita:

  • Possuir relações particulares com o modo de recepção;
  • Estimular um encorajamento do ativismo por parte do espectador;
  • Ter função de uma comunidade interpretativa;
  • Ter tradições de produção cultural interna;
  • Possibilidade de ter status de comunidade alternativa (em relação às que são estabelecidas através relações de consumo)

Portanto, dadas essas características básicas, é válido salientar que nem todo grupo de fãs pode ser considerado necessariamente um fandom. Duffet (2013) é bem didático nesse ponto ao citar diferenças ao levantar apenas o verbete do Oxford English Dictionary em “Understanding Fandom: An Introduction to the Study of Media Fan Culture”, ele diferencia o fã propriamente dito do “fanático” ou dos simples “entusiastas”. Visão compartilhada pelo próprio Jenkins, que lembra que nem todo consumidor é necessariamente um fã. Parafraseando Simone de Bouvoir, talvez possamos dizer que “um consumidor não nasce fã, torna-se”. O consumidor que se torna fã de um produto cultural é diferente daquele que consome sem nenhum compromisso ou devoção, pois o consumo cultural do fã é um processo social transformativo que, portanto, não é restrito ao espectador apesar de ser formado a partir de interpretações individuais e discussões com outros fãs, ou seja, é feito a partir das práticas interacionais internas do fandom. Para ser considerado um fã, por exemplo, o indivíduo deve incorporar as práticas e convenções do grupo, tal como adotar uma “forma correta” de recepção e saber empregar essas práticas e convenções na hora de interpretar em um contexto de experiência coletiva e não somente nível individual.

Se os primeiros relatos de “fanaticus” vinham de ambientes religiosos para designar os devotos mais fervorosos e no século XIX os jornalistas esportivos passaram a se referir aos espectadores assíduos de competições esportivas como fãs, hoje o termo segue passando por ressignificações. Embora a ideia de fãs fanáticos seja persistente, o que fica evidente é que a formação das identidades individuais desses fãs está muito mais apoiada no consumo cultural e midiático, por isso tornam-se tão importantes quando lidamos com audiências.

Agradeço às contribuições da @annasayu lá pelo Twitter!

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