Conheça os estudos de fãs da teledramaturgia brasileira no Obitel

Durante os dias 05 e 06 de Dezembro aconteceu o sexto encontro do Obitel Brasil – Rede brasileira de Pesquisadores da Ficção Televisiva, para as apresentações das pesquisas realizadas no biênio 2016-2017, que buscaram entender os fãs de telenovelas, as vertentes e as rupturas através das mídias digitais e redes sociais online (os fandoms, a produção de conteúdos, fanfics, dentre outros). O Obitel foi criado em 2005 e é formado por grupos de pesquisa de 12 países com o objetivo de, anualmente, identificar e mapear as perspectivas da ficção televisiva através do monitoramento e análise dos dados quantitativos e qualitativos, referentes aos diversos formatos de gêneros. Houveram ainda os lançamentos do 5° Volume da Coleção Teledramaturgia e o Anuário Obitel 2017.

A primeira mesa de apresentações e debates foi mediada pela roteirista Camila Moraes (Globo), onde os Grupos de Pesquisas apresentaram análises dos fãs da telenovela Velho Chico, que impactou o público devido a história regional e cronológica abordada, autores e atores admirados pelos telespectadores, acidente e morte do ator Domingos Montagner durante a finalização da novela e alguns outros fatores mostrados ao longo das pesquisas.

O GP Obitel-ESPM, que é coordenado por Maria Aparecida Baccega e por Gisela Castro, apresentou o tema: Espectadores, fãs e supernoveleiros: Velho Chico na cultura participativa.

Entre as etapas da pesquisa, foram realizadas entrevistas com profundidade e monitoramento online através do Twitter para entender os comentários instantâneos e do Facebook para entender os assuntos alongados, utilizando a hashtag #velhochico. Dentre outros resultados e além dos fãs e telespectadores tradicionais, foram identificadas outras três classes principais de fãs, os supernoveleiros digitais, supernoveleiros tradicionais e os noveleiros digitais.

Supernoveleiros digitais: Fãs assíduos da novela que interagiram e propagaram com alta frequência os assuntos relacionados à narrativa;
Supernoveleiros tradicionais: Telespectadores que acompanharam na íntegra a todos os episódios da trama;
Noveleiros Digitais: Aproveitaram a praticidade do stream para assistir a novela via internet, devido a falta de tempo para acompanhar pela televisão.

Por sua vez, o GP Obitel-UFRGS com coordenação de Nilda Jacks e Lírian Sifuentes dos Santos, apresentou o tema: Velho Chico: mais um episódio na busca pelo fã de telenovela.

Em primeira etapa, a coleta de dados via monitoramento de mídias digitais (Facebook, Instagram, Twitter, Youtube e Tumblr) aconteceu em três fases, durante o início, o meio e o fim da novela. Salientando ainda que o termo “Velho Chico” foi buscado sem a hashtag, já que em algumas plataformas a conversação foi realizada desta forma. Após as análises prévias dos dados houveram as entrevistas com os telespectadores, análise da narrativa contemplada pela novela e comparação das relações de outras novelas brasileiras para entender as práticas online dos fãs desde o Orkut.

Dentre os resultados foi possível perceber que na medida em que as plataformas oferecem maior interatividade entre os usuários, os mesmos aproveitam para compartilhar, produzir e interagir com conteúdos oriundos das telenovelas e investimentos trans-midiáticos das emissoras. Com isso, há a criação de memes, linguagens características dos fãs e discussão cultural que ajuda a sustentar e entender este universo.

Fonte: Twitter @tvguniversidade

A segunda mesa foi mediada por Julio Cesar Fernandes (coordenador de Operações Globo), que recebeu o Obitel-UAM, coordenado por Renato Pucci e Rogério Ferraraz, para apresentação do estudo de caso: Didinâmicas de mediação entre produtores e fãs: o caso de Supermax.

Este estudo teve o objetivo de investigar e entender as relações e mediações online da emissora entre os fãs de séries no Brasil. Os softwares Netlytic e Netvizz foram utilizados para extrair os dados do Twitter e do Facebook, o Gephi foi utilizado para modelar e analisar os dados.

Fonte: Netlytic, modelado com o software Gephi.

Os resultados também mostraram que se caso existisse participação e real aproximação dos telespectadores por parte da emissora, aumentaria a possibilidade de entender os consumidores tornando-os fãs da série em questão. No entanto, também destacam outras pesquisas relacionadas aos estudos das culturas de fãs e aos tipos de estratégias midiáticas para os entendimentos dos mesmos.

Durante a mesa de debates, o Grupo Obitel-USP coordenado por Maria Immacolata Vassallo de Lopes e Clarice Greco (também coordenadoras da Rede Obitel-Brasil), apresentou a pesquisa: Sujeito acadêmico e seu objeto de afeto: aca-fãs de ficção televisiva no Brasil. Pesquisa esta que teve o objetivo de estudar os acadêmicos fãs de telenovelas, através das análises dos Currículos Lattes dos que realizaram e divulgaram estudos com relação ao tema da pequisa.

A partir da metodologia de analisar os currículos, revisar pesquisas anteriores sobre a percepção do que é ser um fã e entender estes acadêmicos como tal, foi possível distinguir o universo paralelo entre estes acadêmicos e seus objetos de pesquisas, enquanto aos estudos de fãs. Abaixo consta as novelas mais citadas durante as entrevistas:

Fonte: CETVN – ECA-USP

No decorrer das apresentações da terceira mesa, a moderadora Leusa Araujo (pesquisadora do Núcleo de Teledramaturgia da Globo), recebeu os grupos Obitel-UFRJ/FIOCRUZ, Obitel-UFBA e Obitel-UFJF.

Primeiramente o Obitel-UFRJ/FIOCRUZ, coordenado por Ana Paula Goulart Ribeiro e Igor Sacramento, apresentou o estudo de caso: #MeuLadoJoaquina: convocações do feminino e narrativas autobiográficas na cultura participativa.

Estudo que objetivou o monitoramento do termo #meuladojoaquina nas mídias digitais, para analisar a eficiência da campanha proposta pela emissora Globo no lançamento da novela Liberdade, Liberdade, a partir da tentativa de engajar a hashtag e se conectar com o público feminino, que viria a ser fã da novela e de personagens específicos.

Os resultados da pesquisa mostra, por exemplo, que houveram diversos tipos e formatos de interações. Contudo, menores do que o esperado, deixando então a reflexão de entender o público e suas necessidades. Além de outros resultados apresentados referentes às interações em causas feministas.

O Obitel-UFBA apresentou a pesquisa: Amados amantes narrados nas fanfictions de telenovelas brasileiras.

Os telespectadores frequentes e usuários assíduos das mídias digitais, são os perfis mais comuns de fãs que criam fanfics (sub-histórias) das telenovelas que agregam empatia social com este público. Estas histórias se baseiam na fantasia e expectativas não supridas pelos autores das novelas. E para entender estes fãs e suas “autorias”, o grupo da Bahia realizou pesquisas observativas e com profundidade, através das plataformas Nyah! e Spirit criadas para produção e consumo de fanfics, contando também com análises no Facebook, Blogs e Instagram.

Esta pesquisa resultou-se na compreensão deste fenômeno complexo da participação colaborativa dos fãs, ao interagirem de modo orgânico com as narrativas, significação e ressignificação dos personagens das telenovelas.

Já o grupo Obitel-UFJF realizou o estudo: Fãs de Liberdade, Liberdade: curadoria e remixagem na social TV.

Estudo focado nos fãs e fanfics da novela Liberdade, Liberdade, que interagiram via Twitter.

“Emergem neste universo as práticas dos fãs de produtos culturais nas redes sociais, que se mostram cada vez mais pujantes e levantam novos desafios para os estudos da comunicação.”

Trecho que especifica a importância deste trabalho, pois cada fandom tem suas características, neste caso, foi apresentado o Twittertainment como uma nova forma de fanfiction.

Fonte: Twitter (2016)

Na quarta e última mesa do dia 05, os grupos Obitel-UFSMObitel-UFSCAR apresentaram seus projetos de pesquisa.

O Obitel-UFSM, coordenado por Veneza Mayora Ronsini e Sandra Dalcul Depexe, apresentou o tema: Distinção e comunicação na apropriação da moda pelos fãs de telenovelas.

O objetivo deste estudo foi de compreender o consumo simbólico e material relacionados à moda e seus produtos, podendo fazer parte da identificação e desidentificação no cotidiano dos fãs de telenovelas.

Finalizando a mesa de apresentações no dia 05, o Obitel-UFSCAR, que é coordeno por João Carlos Massarolo e Dario Mesquita, apresentou o tema: Práticas de binge watching nas multiplataformas.

Trazendo a recordação do antigo sistema das locadoras de filmes e séries, a pesquisa foi realizada para identificar como a prática de binge-watching vem sendo realizada pelos fãs de conteúdos via streaming e/ou downloads.

Dentre sua metodologia foram analisadas as produções de conteúdos audiovisuais que integram a possibilidade do consumo via TVs, computadores e dispositivos móveis. Além das análises de consumo dos fãs que fazem maratona de séries online, como em 3% da Netflix.

Durante o dia 06, o debate mediado por Rodrigo Fonseca (Roteirista da Rede Globo e Crítico de Cinema), recebeu o Autor Lucas Paraíso e a Diretora de Responsabilidade Social, Beatriz Azeredo (ambos da Rede Globo), para debaterem o tema: Gêneros, arcos narrativos e ações socioeducativas. Casos de A Força do Querer e Sob Pressão.

Durante os debates foram apresentados alguns cases produzidos e que podem ser utilizados como insumos de pesquisas, são eles:
Caderno Globo: coleção de cadernos com listas e fontes utilizadas em produções;
Tudo começa pelo Respeito: plataforma criada para discutir ações e direitos sociais;
REP: Repercutindo Ideias: plataforma para compartilhamentos de ideias relacionadas à responsabilidade social.

Sendo citado o blog Teledramaturgia, criado por Nilson Xavier que também lançou o Almanaque da Telenovela Brasileira.

E na finalizando o último dia do evento, Matt Hills (University of Huddersfield, UK), apresentou o tema: Contemporary telefantasy brands: from world-building to the ‘fan world’?

Durante a apresentação e debate, Matt descreveu e explicou a espelhagem dos fãs em filmes e séries e citou a Netflix como criadora de fãs, devido as interações que mantém com os mesmos. Deixando uma mensagem que se, traduzida livremente, seria algo como:

“Há fãs que se aprofundam muito, chegando a se tornarem a própria obra e vivendo por ela, através dela.”

Dando ênfase aos tipos de fãs apresentados nas pesquisas resumidas acima, que podem ser lidas na 5° edição gratuita da Coleção Teledramaturgia, clicando aqui.

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