Eficácia de vacina: é sobre redução de risco, e não sobre chance de ficar doente

Professora Cristina Graciele

Com a ansiedade pelos resultados dos testes das vacinas, muitas leituras indevidas foram feitas dos resultados. O que é crítico num momento de receios de uma parcela da população em tomar uma nova vacina, produzida neste tempo recorde.

Por exemplo, a imagem ao lado foi amplamente divulgada em redes sociais. A boa notícia, de que a vacina funciona, está dada, mas de uma forma um pouco equivocada. Na frase “ao tomar a vacina, você terá 50,4% de chances de não desenvolver COVID-19” deveria ser corrigida para “ao tomar a vacina, você terá uma chance 50,4% menor de desenvolver COVID-19, em comparação a quem não tomou”. O mesmo vale para os quadrinhos de baixo.

As doenças infecciosas têm taxa de transmissão, que (ainda bem!) são menores que 100%. Nem todo mundo exposto pega. Cada pessoa exposta tem um risco de ser ou não infectado. A proposta da vacina é reduzir este risco. E a eficácia da vacina mensura o quanto este risco foi reduzido.

Para explicar melhor, vou partir dos testes clínicos da Turquia, que causaram alvoroço quando divulgados em dezembro. A eficácia anunciada de 91% foi comemorada por alguns e colocada em xeque por outros: o clássico bom demais pra ser verdade?

O ponto é que matematicamente a divulgação está perfeita, o cálculo da eficácia, que é uma mensuração da redução de risco, aponta que quem tomou o imunizante teve redução de 91% no risco de ser infectado, em relação a quem tomou placebo.
O problema aqui é que temos amostras totais pequenas, mas sobretudo amostras de infectados pequenas, o que torna o estudo ainda inconclusivo. Note que eu estou apontando que o segundo problema (número de infectados) é mais crítico para a conclusão que o primeiro (tamanho total do estudo). Por que eu digo isso? Se neste estudo eu tivesse 3 contaminados no grupo que recebeu a vacina, mas 500 dos 570 que receberam placebo tivessem testado positivo para COVID-19, você teria dúvida da eficácia? Seria uma taxa de 0,4% vs outra de 88% de infecção. Acho que as dúvidas reduziriam bastante, né? E o tamanho total da amostra do estudo não mudou para esta situação hipotética.
Este é um dos motivos pelos quais estudos de vacina costumam durar anos: precisamos aguardar que muitas pessoas (entre as que estão fazendo parte do estudo) peguem a doença naturalmente, para ter um volume expressivo que garanta segurança na nossa afirmação. Aí o ganho de ter amostras maiores, como as trabalhadas pelo Instituto Butantan, no Brasil: tem mais gente exposta, então mais gente vai se contaminar num espaço menor de tempo, trazendo uma visibilidade mais rápida do resultado.

Aqui começamos a entender a leitura errada que muita gente tá fazendo na divulgação dos resultados: eficácia não é a chance de você não ficar doente, mas a redução na chance de você ficar doente em relação a quem não tomou a vacina. A chance de você ficar doente depende da prevalência da doença na população, da sua exposição ao vírus, da sua imunidade, etc. O estudo também não é conclusivo sobre a chance de ficar doente: do grupo que tomou a vacina, até a divulgação dos resultados, 3 tinham sido infectados. Se olharmos para este mesmo grupo daqui a 3 meses, é provável que este número tenha aumentado. Mas, como vacina/placebo são distribuídos de forma a garantir que grupo teste e grupo controle sejam comparáveis, podemos supor que em ambos os grupos os riscos de infecção eram os mesmos.

Está aí a bela sacada de levar em conta o risco relativo: o foco vai para a comparação do resultado entre grupos. Assim, independente da contaminação aumentar ao longo dos meses, num recorte de tempo é possível dizer o quanto quem tomou a vacina está reduzindo seus riscos.
Pode ser que com o tempo a eficácia calculada aumente (se, com o passar dos meses o número de infectados no grupo placebo aumentar numa taxa maior que no grupo controle), ou o contrário. Ou seja, a eficácia é relativa e em determinado período (depois de 2 anos ela pode ser bem menor do que depois de 3 meses).

Tem uma leitura que eu considero mais simples que a da eficácia: o risco relativo. Conforme a tabela, o risco de ser infectado foi, em média, 11,5 vezes maior entre quem tomou placebo ao invés do imunizante. Esta talvez fosse uma opção melhor nas divulgações jornalísticas: um pouco mais simples e que não gera confusão com a taxa de infecção. #ficadica

No testes conduzidos pelo Instituto Butantan aqui no Brasil, os dados indicam uma eficácia de 50%.
O risco relativo é 2 vezes maior. Ou seja, o estudo clínico indica que, se tem 2 pessoas em situações de exposição ao vírus similares, a que não tomar vacina terá o dobro de chance de ser infectada. Essa situação de exposição ao vírus indicaria a chance de ficar doente: ambos num ambiente fechado e lotado têm mais chance de ficar doente do que ambos em um ambiente ventilado e com poucas pessoas. A vacina faz um ter vantagem imunológica sobre o outro em ambos os ambientes, tanto no de alto, como no de baixo risco.

Aí temos a problemática da divulgação das eficácias vs nível de gravidade. Assim como o caso turco, não tem nada errado no cálculo. Mas a forma de divulgação pode causar confusão. Ainda mais com a taxa mais alta sendo divulgada antes: como as pessoas percebem isso? Por não entenderem a diferença das taxas elas podem ter se sentido enganadas? Isso pode ter aumentado a desconfiança de que a taxa global seja verdadeira? E o perigoso impacto disso: isso pode reduzir a propensão da população a se vacinar?

Pode ser necessário mais tempo e mais pessoas desenvolvendo a doença para a afirmação ser mais segura para casos moderados e graves. Mas aí trago o dilema ético: temos que esperar pra ver esta evolução, pra ter este índice calculado? Ou assim que chegar a vez na fila (seja por ser grupo de risco ou idade) dessas pessoas que tomaram placebo que elas sejam vacinadas. Troco minha curiosidade sobre índices calculados por vidas salvas 😉

Repare que não existe risco relativo calculável para casos graves, dado que não teve caso no grupo que tomou a vacina, e não é possível dividir um número por zero. E isto faz todo sentido fora da matemática: como eu poderia calcular uma medida de relação entre riscos, se em um caso não tem risco?

Mais importante que uma ou outra taxa em si, é como o resultado dos testes de vacinas têm sido promissores e coerentes. Deu muita diferença entre 2 países? Mas eles apontam pro mesmo lugar, com redução de infecção e, ainda mais importante, apontam redução de casos sintomáticos.

Uma boa vacina, mais do que mais eficaz que outra, é uma vacina minimamente eficaz, segura (não causa efeitos colaterais graves) e principalmente disponível para a população.

Você está preparado para realizar análises estatísticas?

O curso de Estatística Básica para Comunicadores já foi aprovado por mais de 470 alunos que se capacitaram e estão prontos para os desafios do mercado de trabalho. Garanta a sua vaga e aprenda também a aplicar métricas básicas, conceitos estatísticos e gráficos tecnicamente adequados em relatórios.

Clique aqui e faça sua inscrição!

postrelacionados

Tags:  ,   ,   ,  

Comentários

comments

Deixe um comentário