Integridade Eleitoral & Mídias Sociais: Relatório de “Inconsistências na Categorização de Mídias Controladas por Estados”

Por Alexandre Arns Gonzales[1]

Este é o terceiro resumo da série de estudo sobre Integridade Eleitoral & Mídias Sociais, escrita pelo doutorando em Ciência Política, Alexandre Arns Gonzales. Publicado no dia 06 de Outubro de 2020, a análise sobre as “Inconsistências na Categorização de Mídias Controladas por Estados” (Inconsistencies in State-Controlled Media Labeling) foi escrita por Nicole Buckley, Morgan Wack, Joey Schafer e Martin Zhang, da Universidade de Washington, formado pelo grupo “Parceria Integridade Eleitoral”, do Facebook e Twitter com jornalistas e grupos de pesquisa.

Nesta análise, os autores avaliam a política das empresas de mídia digital em identificar, em seus serviços, quais contas estão relacionadas a uma “mídia de Estado”. Em resumo, para os autores do relatório, a política de identificação destes tipos de mídia, iniciada em 2018, se torna mais importante, sobretudo no contexto das eleições presidenciais estadunidenses e, segundo eles, está sendo aplicada de modo inconsistente, reduzindo a possibilidade dos usuários das mídias identificarem quais são as contas, páginas, perfis que são controlados por Estados.

Esse debate está vinculado ao poder de moderação das empresas de mídias digitais na internet e, como os próprios autores fazem referência, se estabelece a partir da perspectiva geopolítica dos Estados Unidos com relação ao mundo. Isto fica evidente com o debate que apresentam, fazendo referência ao texto publicado, no Washington Posts, no dia 27 de abril de 2020, por Vanessa Molter, Renee DiResta e Alex Stamos, intitulado “Na medida em que a propaganda chinesa sobre o COVID-19 cresce, mídias sociais dos EUA devem agir” (As Chinese propaganda on covid-19 grows, U.S. social media must act). A síntese tirada deste debate foi que “as plataformas devem permitir veículos de comunicação de Estado publicar, mas devem fornecer informação para alertar os espectadores que o conteúdo vem de um veículo alinhado a um governo”[2].

Para Molter, DiResta e Stamos, o Estado chinês estava usando os serviços de anúncios digitais, no Facebook e no YouTube, para promover outra percepção sobre os acontecimentos recentes, como a pandemia do novo Covid-19, especificamente sobre o papel do médio Li Wenliang, que alertou sobre a identificação deste novo vírus; e a eclosão dos protestos de rua em Hong Kong, enquanto manifestações promovidas por forças estrangeiras. Com intuito de evitar que Estados façam uso da infraestrutura de comunicação das empresas estadunidenses, com intuitos de interferir na estabilidade política do país, o grupo de pesquisadores propôs que as empresas utilizem o enquadramento da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (Foreign Agents Registration Act) dos EUA, como forma de identificar e categorizar as contas de “mídias de Estado”.

Entre 2017 e 2020 as empresas adotaram e atualizaram esta política de enfrentamento às “operações de influência estrangeira” (foreign influence operations). O Google foi a primeira empresa a divulgar uma política relacionada a identificação de contas de veículos de comunicação associados a Estados estrangeiros; em 2018, o YouTube anunciou adesão à política, apresentando uma notificação nos canais de “mídia de Estado”. Nas notificações, por exemplo, o YouTube disponibiliza mais informações sobre o veículo de comunicação a partir de um endereço do Wikipedia. Para os pesquisadores, o uso do Wikipedia como uma fonte de informação é controversa, para esta política de enfrentamento a operações de influência.

Por fim, com relação ao Facebook e ao Twitter, o relatório é crítico, ambas empresas tardaram, na avaliação do grupo de pesquisa, em apresentar uma política que permitisse os usuários de seus serviços em identificar quais contas estão vinculadas à “mídia de Estado”. Em 2019, o Twitter baniu propaganda paga, nas contas associadas aos Estados, além divulgar uma identificação na conta, informando que é uma “mídia de Estado”; e o Facebook informou que faria o mesmo, mas inserindo a notificação na seção de “Transparência da Página” (Page Transparency).

[1] Doutorando Bolsista da CAPES no Instituto de Ciência Política (IPOL) da Universidade de Brasília e integrante do grupo de pesquisa Repensando as Relações Estados e Sociedade (Resocie).

[2] Texto original: “platforms should allow state media outlets to post, but should provide disclosures to alert the viewer that the content comes from a government-aligned outlet”

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