Integridade Eleitoral & Mídias Sociais: Relatório sobre Facções Bolivarianas – Facebook derruba ativos inautênticos

Por Alexandre Arns Gonzales[1]

Este é o segundo texto da série de estudo sobre Integridade Eleitoral & Mídias Sociais, escrita pelo doutorando em Ciência Política, Alexandre Arns Gonzales. O resumo de hoje é sobre o relatório publicado no dia 04 de setembro de 2020 e aborda considerações relevantes sobre redes de “comportamento inautêntico coordenado” (CIB) e as suspeitas que podem haver por trás disso.

O Observatório da Internet da Stanford publicou o relatório “Facções Bolivarianas: Facebook Derruba Ativos Inautênticos” (Bolivarian Factions: Facebook Twkes Down Inauthentic Assets) em que analisou uma das redes de “comportamento inautêntico coordenado” (coordinated inauthentic behavior – CIB) relacionadas a uma empresa de consultoria, em propaganda e relações públicas, denominada CSL Strategies[2]. Este relatório é decorrente da parceria que o Facebook realiza com grupos de pesquisadores com intuito de conferir certa auditoria das políticas de remoção de contas que a empresa realiza. Nesse sentido, o relatório em questão, sobre a CSL Strategies está relacionado às remoções que o Facebook realizou de um conjunto de redes de “comportamento inautêntico coordenado” no mês de agosto de 2020[3]. Na definição da empresa, o CIB é

quando encontramos campanhas domésticas não governamentais que incluem grupo de contas e Páginas buscando enganar pessoas sobre quem e o quê eles fazem enquanto usam contas falsas, nós removemos tanto contas, Páginas e Grupos inautênticos e autênticos diretamente envolvidas (tradução do autor)[4]

O Facebook, em agosto, identificou três redes de CIB, uma vinculada à Agência de Pesquisa da Internet (Internet Research Agency – IRA), do Estado russo; uma localizada no Paquistão, focada nos assuntos domésticos do Paquistão e da Índia; e, por fim, uma localizada nos Estados Unidos da América (EUA), vinculado à CSL Strategies. Segundo o relatório do Observatório da Internet de Stanford, a CSL Strategies é uma empresa sediada em Washington, nos EUA,  e que presta ou prestou serviços, conforme indica seu site, aos governos no Brasil, Colômbia, Equador, México, Nicarágua e Peru.

O relatório busca demonstrar a associação entre as contas e páginas removidas com os funcionários da CSL Strategies e o fazem por meio de informações sobre a criação destas contas e páginas com as contas e páginas pessoais dos funcionários da empresa. Segundo o relatório, a CSL Strategies gerenciava uma rede de contas e páginas voltadas à promoção da figura política de Juan Guaidó[5], líder de oposição apoiado pelo governo dos EUA, no enfrentamento ao governo Venezuelano[6]; e à promoção da figura política de Jeanine Añez, Senadora que assumiu a presidência do governo de fato na Bolívia após o golpe de 2019, contra a quarta reeleição de Evo Morales[7].

Para além do caso específico da CSL Strategies, o relatório da Stanford faz referência a outros relatórios do Facebook e a relatórios do Twitter, sobre a remoção de contas. Nestes relatórios as contas removidas estão associadas a empresas de consultoria, propaganda ou relações públicas: Archimedes Group, localizada em Israel; New Wave, no Egito; Newwave, no Emirados Árabes; Smaat, na Arábia Saudita; aRep Global, na Índia; DotDev, no Egito e no Emirados Arábes[8]. A questão tratada, a partir da associação destas empresas redes de “comportamento inautêntico coordenado”, é que há, aparentemente, crescimento de um mercado de “campanhas de influência política”[9] baseadas na “coordenação de comportamento inautêntico” que, embora o relatório não trate deste modo, pode ser identificado como um mercado potencialmente especializado em campanhas de desestabilização política.

Segundo o relatório:

À medida que as plataformas vão tomando cada vez mais providências, é aparente que estas campanhas se tornaram um serviço lucrativo e sob demanda, e há uma série de empresas de marketing digital dispostas a fornecê-las e lucrar com elas.[10]

O fato de serem redes de CIB não implica que estas redes produzam “desinformação” ou “notícias fraudulentas”, mas serve de indicativo para suspeita, corroborado pelos casos cuja atuação foi identificada, como a Bolívia e a Venezuela. Por fim, o grupo de Stanford conclui que estes tipos de operação, baseadas no uso de “comportamento inautêntico coordenado”, tende a se tornar mais sofisticadas, sinalizando uma “nova tendência na esfera política online”.[11]

[1] Doutorando Bolsista da CAPES no Instituto de Ciência Política (IPOL) da Universidade de Brasília e integrante do grupo de pesquisa Repensando as Relações Estados e Sociedade (Resocie).

[2]Página 6 do relatório.

[3] Ver Newsroom do Facebook.

[4]Idem

[5] Ver “U.S. envoy says Washington to keep backing Guaido after Venezuela’s December election”, na Reuters.

[6] A análise das informações sobre a atuação da CSL Strategies na Venezuela, ver da página 14 à 18.

[7] Página 6 do relatório.

[8] Página 5 do relatório

[9] Página 6 do relatório.

[10] Página 18 do relatório.

[11] A análise das informações sobre a atuação da CSL Strategies na Bolívia, ver da pagina 6 à pagina 14.

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