No Brasil, Análise de Conteúdo é sinônimo de Bardin e porque isso é um problema

Por Rafael Cardoso Sampaio*

O que é análise de conteúdo?

Como é notório saber, a “análise de conteúdo” é uma técnica de análise de dados, vulgo textos e conteúdos de diversos formatos (e.g. imagens, vídeos, áudios etc.). Trata-se de uma dentre várias formas de se analisar diferentes conteúdos, como também é o caso de análise de discurso, análise textual e tantas outras (para mais sobre essa discussão, ver o nosso outro texto aqui).

Qual a origem da análise de conteúdo?

Agora, pode ser interessante uma breve recapitulação de sua origem. Diversos autores demonstram que análises mais sistemáticas de conteúdo acontecem há alguns séculos, não obstante, enquanto uma técnica científica, geralmente se atribui a formulação moderna da técnica a Harold Lasswell, que a criou para avaliar propagandas políticas entre as grandes guerras (para alguns exemplos, ver Lasswell, 1982). A grosso modo, na literatura anglo-saxã, a técnica passou por inúmeras reformulações e diversos manuais de referência foram lançados ao longo dos anos seja para aplicações mais quantitativas (Krippendorff, 2004; Neuendorf, 2002; Riffe et al, 2014) seja mais qualitativas (Drisko, Maschi, 2016; Kyngäs et al, 2019; Mayring, 2014).

A Análise de Conteúdo de Laurence Bardin

No Brasil, apesar de existirem alguns autores e autoras anteriores, a técnica parece ganhar relevância após a publicação do manual “Análise de Conteúdo” de Laurence Bardin em 1977 (em uma edição em português de Portugal). O manual rapidamente ganhou uma versão nacional em 1979, tendo tido a sua última atualização nos anos 90 (cf. Bardin, 2016, p.13), que passou a ser reimpressa em várias outras edições posteriormente. Conforme tentaremos evidenciar neste texto, o manual de Bardin passou a ser utilizado de forma hegemônica na área, o que provavelmente teve efeito em não termos outros manuais traduzidos.

Assim, o argumento principal deste ensaio é que, no Brasil, “análise de conteúdo” tornou-se sinônimo de Bardin. Em outras palavras, busca-se denotar que, em primeiro lugar, a relação entre a técnica de pesquisa e Bardin é maior que estudantes, pesquisadores e profissionais da área imaginam. Em segundo lugar, de maneira abreviada, deseja-se desnaturalizar essa relação, apontando alguns dos problemas do uso de apenas um manual e mesmo alguns limites da obra em si.

Para evidenciar o primeiro ponto, inicialmente, fizemos um levantamento das principais buscas do Google relacionadas a “análise de conteúdo”, através do SEMRUSH. Os resultados evidenciam que quatro das primeiras 15 palavras-chave mais buscadas estão relacionadas a Bardin, porém, ainda mais preocupante, as pessoas tendem a pesquisar, em primeiro lugar, “análise de conteúdo” como algo conectado à Bardin antes mesmo de pesquisar apenas sobre a técnica em si.

Quadro 1: buscas mais citadas no Google obtidas através da expressão “análise de conteúdo”

Em outra seara, rodamos uma busca no YouTube Datatools pela expressão “análise de conteúdo” sem restrições temporais. O resultado retornou pouco mais de 225 vídeos (já limpando duplicatas). Deste total, 22 vídeos mencionam “Bardin” no título (inclusive o vídeo com mais visualizações deste pequeno corpus de teste), enquanto 61 fazem referência à autora na descrição do vídeo. Em outras palavras, avaliando título e descrição, mais de um terço dos vídeos relacionados à técnica de pesquisa mencionam e/ou trabalham diretamente com o manual da autora na plataforma de vídeo.

Os livros de Bardin de 1977 e 2011

Agora, se esses indicativos ainda não parecem o suficiente para convencer os leitores mais céticos, certamente esse cenário irá se alterar quando mudarmos para o campo acadêmico mais estrito senso. Para reforçar meu argumento, rodei uma busca no “Google Acadêmico” através do software Publish or Perish 8.0 pelo termo “análise de conteúdo” sem restrição temporal. O próprio software já nos retorna os trabalhos mais relevantes (que são geralmente os mais citados e mais referenciados por outros estudos também bem citados).

Quadro 2: 30 obras de análise de conteúdo mais citadas no Google Acadêmico

Olhando o quadro com as 30 principais, fica claro que temos diversos produtos acadêmicos, notadamente artigos, que tratam acerca da técnica. Esse movimento é ainda mais claro dos anos 2000 em diante, evidenciando que continua a se tratar de uma técnica relevante. Os itens marcados em negrito tratam-se de manuais dedicados à técnica, totalizando seis livros (já se retirando duas referências repetidas) dentre os 30 mais citados. Agora, certamente o dado mais notável é o número de citações às diferentes versões do manual de Bardin, que somavam mais de 98 mil citações. Em segundo lugar, temos o manual de Maria Laura Franco (2020), com cinco mil citações, ou ainda, quase 20 vezes abaixo. Ou, em outra comparação de magnitude, se somarmos todas as citações do 2º ao 30º (excluindo-se a referência 26 que também é de Bardin), chegamos a um valor de 26.459. Em outras palavras, Bardin sozinha é três vezes mais citada que todas as outras 28 referências da área em conjunto.

Agora, evidentemente, esse método não é o mais indicado academicamente por uma série de problemas e restrições do Google Scholar. Ademais, a simples citação de uma obra pode não ser a melhor forma de se avaliar o seu impacto acadêmico. Para tanto, o ideal é fazer uma busca mais sistemática em uma ou mais bases e depois fazer a aplicação de certas técnicas cientométricas.

Análise de Redes das referências bibliométricas sobre da análise de conteúdo

Então, para concluir o meu argumento inicial, apresento os resultados iniciais de uma pesquisa acadêmica que se encontra em desenvolvimento (Sampaio et al, 2021). Em primeiro lugar, fizemos uma revisão narrativa da literatura, que já estudou o uso da análise de conteúdo em suas respectivas áreas. Dentre os que avaliaram as referências mais citadas, concluiu-se que se trata da autora mais acionada em diversas áreas, como Administração (Seramim, Walter, 2017; Silva et al, 2017), Comunicação (Martinez, Pessoni, 2015; Quadros et al, 2014) e Educação Física (Nascimento et al, 2019).

Entretanto, notamos que a maior parte dos estudos estava centrado apenas em uma área de avaliação. Assim, recolhemos e tratamos todas as referências que fazem uso de análise de conteúdo na Scielo Brasil, chegando a um número de 3.484 artigos científicos (após limpeza manual). Através do software cientométrico VOSViewer, rodamos redes de cocitações das referências citadas nos artigos (Van Eck, Waltman, 2010), ou seja, trabalhos que são citados em conjunto nas referências, um indicativo de organização do campo intelectual. Novamente, os resultados são contundentes. Bardin não é apenas a autora mais citada e cocitada na Análise de Conteúdo brasileira (na Scielo), mas as diferentes versões de seu manual dominam de forma anormal a grande maioria dos clusters de obras utilizadas pela área. Algo que acontece tanto nas humanidades quanto no colégio de ciências da vida, conforme as duas imagens abaixo, respectivamente.

Figura 1: Cocitações no colégio de Ciências da Vida (Sampaio et al, 2021)
Figura 2: Cocitações no colégio de humanidades (Sampaio et al, 2021)

Por que é um problema continuar com a referência de Bardin?

Portanto, a essa altura, é bem possível que todos os leitores estejam convencidos de nosso argumento principal. No Brasil, “análise de conteúdo” é sinônimo de Bardin. A questão consecutiva óbvia é um “e daí?” ou ainda “Por que este é um problema?”.

Qual, afinal, é o problema de apenas um manual dominar a utilização de uma técnica? Bom, como apontamos na discussão do artigo (Sampaio et al, 2021), há dois grandes problemas principais.

1. Manual antigo dos anos 70

O primeiro e mais óbvio reside no fato de tratar-se de um manual que foi originalmente publicado em 1977 e atualizado pela última vez no início dos anos 90 (Bardin, 2016, p. 13). Isso significa que todas as grandes modificações trazidas pelos meios digitais, especialmente a internet, não foram atualizadas, assim como as discussões metodológicas e epistemológicas das duas últimas décadas. A título de exemplo, podemos falar de toda a discussão contemporânea sobre maior transparência da pesquisa, replicabilidade dos dados e sobre uma ciência mais aberta e colaborativa. São discussões candentes, posteriores a essa data e em grande medida facilitadas ou mesmo fomentadas pelos novos repositórios acadêmicos digitais.
2. Falta de teste de confiabilidade

Em segundo lugar, mas diretamente relacionado ao item anterior, o manual de Bardin não cobre de forma adequada uma série de questões importantes às aplicações mais sofisticadas e robustas da técnica de análise de conteúdo. Exemplificativamente, podemos citar o teste de confiabilidade entre codificadores/classificadores, ou ainda, um teste apresentado aos pares para indicar que todos os codificadores da análise apresentam uma visão razoavelmente similar dos códigos e da forma de codificar/classificar. Trata-se de um ponto fundamental para a publicação em periódicos internacionais de alto impacto e ponto cada vez mais exigido nas publicações qualificadas brasileiras (cf. Sampaio, Lycarião, 2018, 2021). Da mesma forma, podemos apontar que o manual de Bardin toca em certas questões importantes, como a amostragem e a construção de um livro de códigos, porém não a desenvolve de maneira adequada de acordo com esses padrões da literatura especializada.

O manual de Bardin está desatualizado

Portanto, em resumo, o manual de Bardin começa, naturalmente, a ficar desatualizado, não seguindo as principais tendências da aplicação da técnica pela literatura de ponta. Ao se basear quase que exclusivamente em tal manual, toda a produção brasileira parece, como sugerimos em nosso artigo, estar “parada no tempo” (Sampaio et al, 2021).

Em grande medida, acreditamos que existe uma importante agenda de pesquisa à frente. Ela envolve simultaneamente desnaturalizar o uso exclusivo do manual de Bardin e denotar a importância de certos avanços metodológicos das aplicações especializadas e contemporâneas da análise de conteúdo.

 

Agradecimentos:
Gostaria de agradecer a Max Stabile pela coleta no SEMRUSH e a Djiovanni Marioto pela ajuda na coleta no YouTube Data Tools.

* Rafael Cardoso Sampaio é professor do departamento de ciência política da UFPR, coordenador do grupo de pesquisa COMPADD. É autor, junto com o professor Diógenes Lycarião da UFC, do manual “Análise de conteúdo categorial: um manual de aplicação” pela ENAP. cardososampaio@gmail.com

Referências

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Drisko, J. W.; Maschi, T. Content Analysis. Pocket Guides to Social Work Research Methods. Oxford: Oxford University Press, 2016.

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