Quando o óbvio passa batido: a importância da descrição metodológica em trabalhos acadêmicos

Quantas vezes você leu uma pesquisa e ficou com a sensação de que a metodologia não era clara o suficiente para explicar os resultados? Quantas vezes você se sentiu frustrado ao tentar replicar dados de uma pesquisa e perceber lacunas importantes para a compreensão do raciocínio empregado pelo autor?

Há um ponto comum e interdisciplinar em toda e qualquer produção científica: a necessidade de expor o caminho percorrido (inclusive teórico) para chegar aos resultados ou às hipóteses mobilizadas.

No entanto, por vezes, nos deparamos com seções metodológicas descritas de maneira confusa e que nos impedem de reproduzir e aplicar os dados compartilhados. Este fato não é aspecto exclusivo de uma determinada área, mas vamos focar aqui no campo da Ciência Política.

O ensino metodológico nas universidades

Soares (2005) expôs o que chama de ‘calcanhar metodológico’ da Ciência Política no Brasil. Sem entrar no mérito da discussão sobre a rixa existente entre pesquisadores de abordagens quantitativas vs. qualitativas, o autor identificou pesquisas acadêmicas com baixo rigor metodológico em geral.

Investigando possíveis razões para a realidade que encontrou, Soares elencou, dentre outros fatores, a pequena oferta de disciplinas obrigatórias sobre métodos de pesquisa nos cursos de graduação e pós graduação nas universidades federais do país.

Segundo o autor, a observação de pontos cegos na formação de pesquisadores junto à ausência de padrões metodológicos mínimos resultariam no amálgama de obstáculos para a construção de uma área comum interdisciplinar, considerando pesquisadores de diferentes áreas e, também, de uma mesma área mas com abordagens e técnicas distintas.

Inclusive, sobre a rivalidade epistemológica entre cientistas (que algumas vezes tem como combustível a falta de compreensão), Soares (2005) fez uma importante ressalva “Ainda que se faça a opção de não usar essas técnicas [sejam elas quantitativas ou qualitativas], é necessário poder ler corretamente os trabalhos que as usam.” (SOARES, p. 36).

Anos depois, Barberia, Godoy e Barboza (2014) se propuseram reavaliar a situação da produção acadêmica brasileira contemporânea, incluindo os cenários de outros países para comparação. Utilizando dados da CAPES entre 1998 e 2012, os autores se surpreenderam de forma positiva com a diversificação das disciplinas de metodologia ofertadas nas universidades brasileiras nos programas de Ciência Política.

Numa perspectiva comparada, os autores também encontraram indícios de que “deficiências substantivas no ensino de métodos na graduação” não são particularidade do nosso ensino superior, observadas também nos EUA, Europa e Oceania (p. 177).

Ainda assim, em termos de número de disciplinas ofertadas permanecemos em desvantagem. A linha azul do gráfico abaixo mostra que a média de disciplinas ofertadas não passa de três, considerado o conjunto dos cursos de metodologia e técnicas de pesquisa oferecidas pelos programas de pós-graduação em Ciência Política no Brasil.

Média de disciplinas oferecidas, 1998 a 2012

gréfico média de cursos de metodologia ofertados
Fonte: elaborado pelos autores Barberia,Godoy e Barboza e publicado no artigo ‘Novas Perspectivas sobre o ‘Calcanhar Metodológico’: O Ensino de Métodos de Pesquisa em Ciência Política no Brasil’

Portanto, apesar da diversificação dos conteúdos, os autores concluem que há ainda espaço para o aprofundamento no aprendizado de técnicas e métodos de pesquisa (para além de ementas genéricas e cursos introdutórios) e para o avanço dos trabalhos acadêmicos, sejam de perspectiva quanti, quali ou abordagens mistas:

“O grande objetivo da formação em métodos de pesquisa é dar condições aos futuros pesquisadores para fazerem perguntas que façam sentido e desenvolvam explicações com boa fundamentação teórica, encadeamento lógico e coerência.” (BARBERIA, GODOY E BARBOZA, 2014, p. 178).

Boas práticas de metodologia

Identificados os problemas no ensino metodológico, cabe a nós pesquisadores pensarmos formas de contribuir para uma produção com maior rigor metodológico. Abaixo, alguns pontos:

  • Trazer mais discussões sobre abordagens metodológicas diversas a fim de ampliar o conhecimento sobre um processo que é elementar em qualquer pesquisa.
  • Complementar a formação por outros meios. A internet nos permite acessar uma enxurrada de cursos online disponibilizados por renomadas universidades e institutos de pesquisa.
  • Incentivar a cultura do compartilhamento da produção científica com os colegas. Muitas vezes temos a impressão de que alguns aspectos são muito óbvios para serem descritos e, portanto, desnecessários. No entanto, é preciso lembrar que estes mesmo aspectos são óbvios para o pesquisador que está ali em contato integral com seu texto.

E vocês? O que pensam sobre o assunto e quais outras alternativas consideram viáveis?

Referências Bibliográficas

BARBERIA, L. G. ; GODOY, S. R. ; BARBOZA, D. P. Novas Perspectivas sobre o ‘Calcanhar Metodológico’: O Ensino de Métodos de Pesquisa em Ciência Política no Brasil, Teoria & Sociedade (UFMG), v. 22, p. 156-184, 2014.

SOARES, Gláucio Ary Dillon. O calcanhar metodológico da Ciência Política no Brasil. Sociologia, Problemas e Práticas, nº 48, pp. 27-52, 2005.

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