As pesquisas eleitorais erram tanto assim?

Texto por Cristina Graciele Cardoso

As pesquisas eleitorais foram uma das grandes responsáveis pela minha escolha profissional. No começo da adolescência acompanhava os gráficos nos jornais e achava sensacional como eles conseguiam saber a opinião dos brasileiros. Fui cursar Estatística, e sou muito feliz com esta escolha. Somando a minha formação com o fato de eu ter trabalho alguns anos em institutos de pesquisa, sou questionada por meio mundo sobre resultados de pesquisas. E, não só explico, como sempre adoro falar deste universo sensacional que é a teoria amostral.

Tenho algumas críticas à metodologia dos institutos, mas com certeza não é o tamanho amostral (mais do que suficientes para a pretensão das pesquisas). Estas críticas são mais técnicas, aí vale um papo mais longo que este texto.

Independente destas críticas, me espanta ouvir e ler tantos vezes por aí que “estas pesquisas só erram!”. Só erram mesmo?

Eu, porque sempre gostei de pesquisa e de política, sempre acompanhei os resultados divulgados. E não enxergo estes “erros”.

Abaixo, consolidei os resultados do Datafolha para a intenção de voto na presidência da república nas ultimas 4 eleições. Escolhi este, mas poderia ter tabulado os dados de qualquer outro instituto (estes dados são públicos). No final da evolução dos resultados da pesquisa de cada candidato, inclui o resultado oficial da apuração de votos. Propositalmente deixei como pontinhos lá: faça um “ligue os pontos” e me diga qual pesquisa está tão errada assim?

Muito se falou que as pesquisas erraram feio em 2014. Mas nunca podemos esquecer que a pesquisa considera “se as eleições fossem hoje”, e as pessoas mudam de opinião. Experimentem, ao invés de olhar um resultado pontual, acompanhar a EVOLUÇÃO DA CURVA (aliás, praticamente qualquer analise numérica devia ser feita assim). A Marina disparou em intenções de votos após o acidente com Eduardo Campos(13/ago) e alguns dias depois começou a cair e não parou mais. Até a penúltima pesquisa ela estava à frente do Aécio, mas ele vinha numa curva crescente e ela vinha caindo. Sendo assim, as pesquisas erraram ou a interpretação de uma pesquisa pontual vs resultado final distorceu algumas analises?

Aí vem a pergunta: “ah, mas agora, em 2018, todo mundo errou!”. Volto à linha de evolução na imagem abaixo: o que está tão fora da curva?

“Ahhh, mas os resultados saíram da margem de erro!”. Aí vem um novo erro de interpretação: a margem de erro é da pesquisa realizada. A pesquisa realizada pergunta “se a eleição fosse hoje”, então a margem de erro não pode ser extrapolada para dias subsequentes.

A amostra é uma fração do universo no momento da coleta. Os resultados da amostra são extrapolados, com determinada margem de erro em um dado nível de confiança, para o universo total: entrevistados à eleitorado. Nada na metodologia se propõe a prever o futuro.

Então, o ponto inicial da análise das intenções de voto tem que ser a evolução da curva, nunca um resultado isolado.

Um segundo ponto, trata do cenário atual. Quando as eleições foram tão instáveis quanto este ano? Quando a intenção de voto foi tão volátil? (aqui caio num ponto que sempre martelo com meus alunos: de nada adianta aplicar metodologias estatísticas se não houver critica aos resultados)

Muitos me falam que não conhecem ninguém que foi entrevistado por um instituto. Mas, aposto contigo que você conhece alguém que mudou o voto de última hora. A probabilidade de ser entrevistado é bem baixa mesmo, afinal são pouco mais de 2mil entrevistados em um universo de 117MM de eleitores. Contudo, acabei de te apresentar um exemplo de algo que, com todo o contexto desta eleição singular pela polarização e pelo fator redes sociais, tinha uma alta probabilidade de acontecer.

Pensando no fator alta probabilidade de mudança de intenção de voto, uma análise da evolução da curva dos resultados das pesquisas vs resultados apurados na urnas, não faz mais sentido?

Questionamos muito os institutos falando que eles erram muito, mas não temos tantos dados que apontem este alto índice de falha.

Que tal nos questionarmos um pouco mais nossa forma de olhar a informação? (para pesquisa eleitoral e para qualquer outra análise no seu dia-a-dia) ?

PS: No texto todo nem entrei no mérito da confiança (o tal dos 95%) e de metodologia de seleção. Ou mesmo possíveis modelos de previsão do resultado de fato. Mas estes pontos, tais como minhas críticas às metodologias, valem papos mais longos….

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