Publicação analisa relação entre desinformação e preferências políticas no cenário brasileiro da covid-19

Em uma recente publicação disponibilizada na revista Frontiers, pesquisadores analisam a relação entre as preferências político-partidárias da população, o conhecimento sobre o coronavírus e a doença, e o cenário de desinformação que existe hoje, chamado por alguns estudiosos de “infodemia”. O intuito do artigo é mensurar a partir de questionários disponibilizados online o quanto a população brasileira conhece sobre a covid-19 e como fatores ligados à política ou a outros fatores contextuais podem indicar. 

Logo no início, os autores fazem uma contextualização geral sobre a situação da covid-19 no país, apontando como o conhecimento sobre a doença e cuidados que devemos tomar é importante para ajudar no combate à pandemia. A partir de uma discussão com referências sobre o tema, os autores mostram que os entendimentos sobre a doença podem auxiliar a populaçõe na hora da prevenção. No entanto, no país onde uma parcela grande de pessoas não possui acesso à internet ou outros meios de comunicação, isso não é plenamente possível. Além disso, também levam em consideração na análise o fato de que em países como Estados Unidos e Brasil as elites políticas não levaram em conta as recomendações e medidas mais adequadas para evitar contágios e conter o avanço da doença no país. Muito disso se deve aos presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, declaradamente contrários às medidas sanitárias recomendadas pela autoridades de saúde.

Para avaliar como essas questões influenciam a percepção dos brasileiros em relação à covid-19, os pesquisadores decidiram adotar duas medidas para mensuração. A primeira tem a ver o nível de conhecimento sobre a covid-19, seus efeitos, sintomas, formas de transmissão e recomendações de cuidado e proteção. A segunda, por sua vez, diz respeito às teorias conspiratórias sobre o surgimento da covid-19 no coronavírus no mundo. A escolha delas está relacionada aos mais recentes discursos envolvendo “tratamento precoce” e algumas narrativas conspiratórias defendidas por algumas figuras públicas, como uma que afirma que o vírus surgiu a partir de um laboratório chinês. 

A pesquisa foi realizada por meio de um questionário distribuído entre 2.771 pessoas de todo o país durante o período de 23 de setembro a 2 de outubro de 2020. A amostra da pesquisa levou em conta marcadores sociais como idade, gênero, região e classe social, inclusive o conjunto desses fatores. 

Resultados: conhecimentos gerais e preferências políticas

 

Os resultados da pesquisa mostram que apesar da maioria da população (95,3%) saber que a infecção do coronavírus ocorre por vias respiratórias, uma parte significativa não está ciente de que medicamentos como hidroxicloroquina não previnem ou curam a covid-19 (60,8% e 56,8%, respectivamente), sendo que parte expressiva afirma que previne ou cura (12,6% e 15,8%, respectivamente) ou não souberam responder (26,7% e 27,3%, respectivamente). 

Outro dado relevante é que o conhecimento geral sobre a Covid-19 é considerado alto na população brasileira: 8 das 15 perguntas foram respondidas corretamente por mais de 80% dos respondentes, como mostra o gráfico abaixo: 

A investigação também constatou que algumas variáveis afetam significativamente alguns resultados da pesquisa, como o nível de conhecimento sobre a doença. Pessoas que são mais preocupadas com a doença e suas implicações tendem a ter um conhecimento maior sobre a covid-19 que aquelas menos preocupadas. Do mesmo modo, pessoas que tiveram Covid-19 conhecem um pouco mais em relação àquelas que não tiveram; enquanto isso, pessoas que tiveram algum familiar ou amigo que teve covid-19 ou morreu da doença conhecem significativamente mais do que aqueles que não vivenciaram isso.

Quanto às teorias da conspiração, os autores descobriram que mais de um quarto dos brasileiros acreditam que o coronavírus foi uma criação de um laboratório chinês para aumentar o poder econômico do país asiático. Além disso, 36% dos brasileiros acreditam que o vírus tem origem em um mercado de animais vivos em Wuhan (China). No entanto, quase 38% dos respondentes afirmam não saber se as duas narrativas acima são verdadeiras.  Neste mesmo contexto, os resultados estatístico da pesquisa indicam que a probabilidade de acreditar na teoria da conspiração de que o coronavírus foi supostamente criado na China diminui 15% quando comparado pessoas que afirmam não estarem “nada preocupadas” com aquelas que estão “muito preocupadas” com a covid-19. 

Ao contrário do que os autores previam, o nível educacional não é uma variável que apresenta diferenças significativas a ponto de indicar um reforço a teorias conspiratórias a respeito da origem do coronavírus. Do mesmo modo, o status social e o consumo de mídia também não afetam diretamente o apoio a essas narrativas.

Ao final do texto, os autores indicam que essa pesquisa é uma iniciativa importante para pensar as relações entre as preferências e o conhecimento sobre algum tema, sobretudo em temas sensíveis como saúde. O artigo completo tem acesso livre e pode ser conferido no site da revista Frontiers. O trabalho é uma parceria entre pesquisadores da Universidade de Brasília, da University of Western Ontario, e da Universidade de Goiás. Além disso, contou com auxílio também do IBPAD na coleta, limpeza e tratamento dos dados. 

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