Qual o impacto da pandemia sobre o comparecimento eleitoral nas eleições de 2020?

Por Alessandro Freire ¹

Trabalhei com o Wladimir Gramacho (CPS) e o Max Stabile (IBPAD) em um survey em painel com uma amostra online de eleitores para respondermos a essa pergunta.

Àqueles que afirmaram não terem votado nas eleições de 2020, perguntamos a razão pela qual preferiram se abster. Apenas 20% dos que não votaram apontaram o medo de contrair o vírus como justificativa (resposta estimulada).

A resposta estimulada mais frequente foi a ausência do domicílio eleitoral (61%). A falta de um(a) candidato(a) (8%) e o costume de não votar (6%) aparecem como categorias residuais. As respostas espontâneas sugerem que a percepção de corrupção generalizada também impactou negativamente o comparecimento eleitoral em 2020.

Como nossa amostra de eleitores ausentes é pequena (267), as comparações entre subgrupos apresentam intervalos de confiança alargados, o que dificulta tirarmos conclusões sobre os efeitos de variáveis como ideologia ou avaliação do governo, como na figura abaixo. De todo modo, o medo de contrair Covid-19 parece ter sido pouco relevante tanto para os simpatizantes quanto para os insatisfeitos com o governo Bolsonaro.

Adicionalmente, o survey incluía uma pergunta sobre a preocupação dos respondentes com a pandemia. Testamos o efeito dessa variável sobre o comparecimento eleitoral a partir de um modelo de regressão logística bivariada. O coeficiente da variável, embora negativo, não apresentou significância estatística.

Alguns fatores contextuais e institucionais podem explicar esses resultados. Em relação ao contexto, cabe lembrar que as eleições municipais de 2020 ocorreram em época de relativa baixa do número de infecções e mortes por Covid-19 no Brasil. Nesse sentido, muitos eleitores podem ter se sentido mais seguros para irem às urnas em novembro do ano passado.

Em relação às instituições, é importante notar que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) procurou facilitar a justificativa da ausência por meio do uso de aplicativos, o que pode ter contribuído para o aumento das taxas de abstenção. Por fim, o voto é obrigatório no Brasil (sim, o voto, já que votos brancos e nulos, apesar de inválidos, também são votos!). Ainda que as sanções para a abstenção sejam no Brasil relativamente baixas para a maioria da população (exceto para os servidores públicos), a literatura de ciência política tem demonstrado consistentemente o efeito positivo da obrigatoriedade do voto sobre o comparecimento eleitoral (Gallego, 2010; Jackman, 1987; Jaitman, 2013). Além disso, ainda que a multa paga pelo não comparecimento às urnas seja essencialmente simbólica, a maioria dos cidadãos prefere evitar imbróglios com o Estado brasileiro.

Em suma, nosso survey sugere que o medo do Coronavírus foi muito pouco relevante para a alta da abstenção eleitoral em 2020. Embora nossa amostra seja composta por internautas e, portanto, não contemple toda a população de eleitores brasileiros, nossas análises apontam para um efeito tímido da pandemia sobre o comparecimento eleitoral nas últimas eleições municipais.

Referências Bibliográficas

Gallego, A. (2010). Understanding unequal turnout: Education and voting in comparative perspective. Electoral Studies29(2), 239-248.

Jackman, R. W. (1987). Political institutions and voter turnout in the industrial democracies. The American Political Science Review, 405-423.

Jaitman, L. (2013). The causal effect of compulsory voting laws on turnout: Does skill matter?. Journal of Economic Behavior & Organization92, 79-93.

¹ Doutor em Ciência Política e Professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP)

postrelacionados

Comentários

comments

Deixe um comentário